Monthly Archives: Fevereiro 2013

Conferência de Slavoj Žižek em Brasília em novo local (com mais vagas!)

Atenção!

A conferência de Slavoj Žižek em Brasília teve seu local alterado. O novo endereço é Centro Comunitário da UnB (Campus Darcy Ribeiro – UnB – Asa Norte, acesso pela L4 Norte). O dia e horário continuam os mesmos (terça-feira 12 de março, às 18h30).

As inscrições seguem abertas! Para se inscrever, basta enviar e-mail para zizek.df@laurocampos.org.br (vagas limitadas).

Slavoj Žižek: um rebelde com causa – entrevista para o jornal Zero Hora

Retrato de Slavoj Žižek por Luca del Baldo

Retrato de Slavoj Žižek por Luca del Baldo

Slavoj Zizek está machucado. Na semana passada, ele caminhava numa rua de Liubliana, capital da Eslovênia, onde vive, quando escorregou numa camada de gelo e caiu de costas, fraturando três costelas. Referindo-se com bom humor ao ocorrido como um “acidente estúpido”, ele dá início na quarta-feira a uma conversa telefônica de 43 minutos com Zero Hora.

Levando em conta que Zizek é um dos mais instigantes pensadores contemporâneos, professor e diretor de instituições acadêmicas na Eslovênia e na Grã-Bretanha, o repórter considera apropriado começar a entrevista com uma questão de ordem teórica: como se pronuncia seu sobrenome?
– Jijék – é o que se pode entender da resposta. – Mas não importa, todos pronunciam errado. Se alguém o pronuncia corretamente, eu suspeito que se trata de um policial.

É a vez de Zizek perguntar o que ocorreu com o Fórum Social Mundial, que se reuniu pela primeira vez em Porto Alegre em 2001. Ele esteve por duas vezes no Brasil, passando por São Paulo, Rio e Salvador. Segue-se uma rajada de comentários sobre as peculiaridades regionais brasileiras (“Quanto mais vou para o Sul, mais gosto”), sobre as capitais baiana (“Salvador é muito quente, eles dançam muito”) e paulista (“Sou um workaholic, gosto de São Paulo. Há ordem. Certo, há caos, não ordem, mas você sabe o que quero dizer. Há uma certa dinâmica. As pessoas trabalham, não dançam. Sou muito totalitário”).

Zizek começará por Porto Alegre um giro de lançamento de seu mais recente livro traduzido para o português, Menos que Nada (Boitempo Editorial). Na Capital, ele participa do seminário Marx: a Criação Destruidora no próximo dia 5, às 19h, na Câmara Municipal. A seguir, uma síntese da entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Quais são suas impressões sobre o Brasil?
Slavoj Zizek – As impressões são sempre divididas, mas gosto do país. Por exemplo: sei que há muita divisão ideológica sobre o Brasil. Uma é de que é um país onde as pessoas sabem aproveitar a vida, dançar e fazer música. Mas sei que há também um outro lado. Sei que há muitos negros no Brasil, mas a elite política permanece branca. Nos governos de Lula, havia apenas aquele famoso cantor negro que era ministro da Cultura (Gilberto Gil). Talvez agora seja diferente. Isso me lembra um pouco os antigos regimes comunistas, onde havia sempre mulheres no governo, mas apenas em três pastas consideradas de segundo classe e afastadas do poder real: Cultura, Educação e Assistência Social. Por outro lado, meus amigos brasileiros dizem que há ainda uma forte divisão racial, mas que permanece invisível. O que deve surpreendê-lo a respeito do Brasil é que a divisão social, entre ricos e pobres, é visível. Você vê favelas. Durante minha primeira visita, no início dos anos 1990, fui convidado a uma reunião na casa do diretor da Volkswagen do Brasil. Era uma mansão luxuosa, mas de lá era possível ver, a pouco mais de um quilômetro, uma favela. Gosto disso. Vocês não escondem isso como em outras cidades. Vá a Buenos Aires, você não vê favelas. Estão escondidas. Inicialmente, fui cético a respeito do governo Lula. Toni Negri (Antonio Negri, sociólogo marxista italiano) me disse há muitos anos: “Não subestime Lula e não superestime Hugo Chávez”. Me convenci cada vez mais de que Chávez não resolve realmente os problemas, injeta dinheiro neles. Ele não inventa nenhuma nova forma socioeconômica. Conheço essas formas de participação dos trabalhadores nas fábricas, mas sou cínico a esse respeito. Amigos me informam que há todas essas boas notícias sobre trabalhadores que controlam fábricas, cooperativas, mas que seria bom ir até lá um ano depois e ver o que aconteceu com a fábrica. Muitas vezes faliu.

ZH – Na sua opinião, há alguma experiência positiva de governo na América Latina?
Zizek – Gosto muito mais do caso da Bolívia, com Evo Morales e seu vice-presidente, Linera (Álvaro García Linera), que conheço. Não há solução fácil com dinheiro, como no caso de Chávez. É preciso trabalhar duro. Acredito que o caso do Brasil é importante. Mesmo se concordamos que o problema é o capitalismo global, blablá, isso não significa que possamos parar e simplesmente preparar alguma grande revolução. Há muitas coisas que você pode fazer dentro da ordem atual. Há espaços abertos nos quais se pode fazer algo. O Brasil é um bom exemplo daquilo que, com uma política inteligente, você pode fazer mesmo dentro das coordenadas do (vamos chamá-lo assim) capitalismo global. Não sou contra o eurocentrismo. Acredito que a Europa levou muitas coisas boas para o mundo, como democracia, igualitarismo e assim por diante. Mas, apesar disso, percebo que muitas vezes os esquerdistas, em especial, são surpreendentemente eurocêntricos. Por exemplo, veja toda essa bobagem de que hoje estamos numa crise global e assim por diante. Quando estive no Brasil, há dois anos, ou agora, em Cingapura e na China, as pessoas estavam certas em me perguntar: dane-se, que crise? Veja, até os Estados Unidos estão se recuperando, a China está indo relativamente bem, Cingapura, Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia. Até os países do sul da África estão indo para a frente. Sem falar no Brasil e na América Latina, então, que crise? Estritamente uma crise local e europeia. Não é uma crise global, você sabe.

ZH – O senhor não viu sinais de crise fora da Europa?
Zizek – É claro que 2008 foi o momento de uma crise global potencial, mas agora, numa perspectiva mais longa, o que vemos é que a Europa simplesmente está perdendo sua função de modelo. Incidentalmente, não acredito que isso seja um fenômeno para se comemorar. O que está surgindo no lugar do capitalismo europeu é o capitalismo com valores asiáticos, que não tem a ver com a Ásia, mas simplesmente com um capitalismo mais autoritário. É um típico exemplo de eurocentrismo incluir tudo numa crise global. Não! Se você observar os números, existe hoje um grande progresso no Brasil, na China. Sei que estão ocorrendo horrores na China. Mas sejamos francos: existe menos fome em massa na China hoje em dia do que, digamos, há 40 anos. Então, não compro essa história superficial de que o capitalismo está em crise mortal, está caminhando para o seu fim e assim por diante. A outra razão pela qual gosto da abordagem brasileira é que estou um pouco farto e cansado desses assim chamados esquerdistas radicais que ainda esperam por um grande momento revolucionário, no qual a verdadeira classe trabalhadora virá impor a sua democracia e assim por diante. Sinceramente, não compro essa história. Sim, eu sei que a democracia multipartidária tem suas limitações. Negri me convenceu de que esse foi precisamente o caso do Brasil. O jeito de Lula fazer funcionar… Foi como Negri descreveu para mim, e acreditei nele. É claro que há corrupção, porque o único jeito de Lula aprovar suas medidas foi corromper, pagar os partidos menores. Então, novamente, há limitações, mas todas aquelas histórias poéticas de cooperativas locais, produtores, comunidades interdistritais que irão se expandindo gradativamente e envolvendo todo o Estado… não, não vão. Mais do que nunca, nós precisamos de organizações globais, com grandes redes globais. Não acredito nesses mitos de comunidades locais se aproximando e assim por diante. Não estou idealizando o Brasil, mas, uma vez mais, foi exemplo modesto e hoje relativamente bem-sucedido do que você pode fazer dentro do sistema existente. Mais uma vez, é importante livrar-se dos mitos de democracia direta e mesmo anticapitalismo. É evidente que sou anticapitalista. Acredito sinceramente no que escrevi. Mas sejamos claros: podemos sequer imaginar uma alternativa hoje? É claro que não peço que ninguém dite planos para o futuro, mas mesmo aventar a ideia de um socialismo de Estado é apenas um pouco mais radical do que uma democracia social. Considero muito deprimente a maneira como a esquerda radical diz todo o tempo, enquanto nós, no Ocidente, vivemos em relativa prosperidade: “Espere um momento, haverá uma crise, vocês verão que essa prosperidade é falsa”. OK, alguns países da Europa agora enfrentam uma crise: Grécia, Espanha, Grã-Bretanha, França.

ZH – Na Bulgária, o governo caiu nesta quarta-feira.
Zizek – Sim, mas você notou como poucas ideias reais nasceram desses protestos? Acredito que essa última crise de insatisfação na Europa é o maior malogro da esquerda que podemos imaginar. Colocamos essa energia em protestos, que eu apoio totalmente, mas não conseguimos transformá-los em movimentos políticos organizados que tentassem tomar o poder e fazer alguma coisa. Lembro dos acontecimentos do movimento Occupy Wall Street. Fui a Nova York, a Frankfurt e a outras cidades e fiz aos manifestantes uma pergunta psicanalítica simples: o que vocês querem? Ouvi respostas totalmente confusas: moralismo abstrato, diversidade política, honestidade, trabalho pelo bem comum. E então você tem esse tipo de movimento antifinanceiro, que eu rejeito totalmente em razão de sua teoria protofascista, que tenta opor o mau capitalismo, que não é produtivo, ao bom capitalismo, que é realmente produtivo. Não, isso não funciona. O capitalismo de hoje é capitalismo financeiro. Você não pode imaginar que ele se financie sem bancos fortes, que ofereçam crédito e assim por diante. E há pessoas que sonham com democracia direta e socialização, mas isso não funciona. Eu estava só perguntando às pessoas: “O que vocês querem?”. E é incrível que, somente por ter feito essa pergunta, eles me tratavam como uma espécie de inimigo. Como se me dissessem: “Por que você está fazendo essa pergunta agora? Estamos na primeira fase de nosso trabalho, estamos desenvolvendo-o”. Eu sei, eu sei, mas não penso francamente que, por haver revolta, irá aparecer algum movimento forte como opção séria. O problema é que, quando você tem revolta e não tem projeto de esquerda que seja aceito pelas pessoas, obviamente, a direita radical vence.

ZH – Não é um problema antigo para a esquerda a conciliação das ideias socialistas com o movimento real das massas?
Zizek – Em primeiro lugar, o marxismo tem de fazer um pouco de autocrítica. Penso que a questão não é apenas a de como podemos mobilizar as pessoas com base em nossa teoria, mas a de nos perguntarmos se algo está errado com a própria teoria. Por exemplo, qual é o sujeito potencial da mudança amanhã? Está claro que não é mais a classe operária tradicional. Na Europa, falar na classe operária tradicional é dizer: “Sim, sim, você é explorado. Mas, pelo menos, você tem um emprego permanente no qual é permanentemente explorado. Você quase pode ser considerado um privilegiado hoje”. Há trabalhadores precarizados, desempregados, imigrantes, excluídos… Não penso que o agente potencial da mudança possa ser simplesmente a velha classe operária. A segunda observação não muito popular que eu gostaria de acrescentar é: não mistifiquemos as tentativas revolucionárias do passado. Por exemplo, as pessoas estão muito desapontadas, oh, meu Deus, com o fato de os partidos islâmicos terem tomado conta do Egito. Amigos que estiveram na Praça Tahrir disseram que não mais de 10% da população efetivamente participaram das mobilizações. Obviamente, a maioria simpatizava com o que estava acontecendo, mas estava à margem, esperando. E agora vou mais longe: você não acha que isso se aplica a todas as revoluções? Veja a Revolução de Outubro. A participação foi ainda menor. Eram um ou dois grupos nas grandes cidades. Mas há um outro exemplo, mais dramático, da Revolução Mexicana, sobre a qual recentemente li um livro. Há um momento em que Emiliano Zapata entra na Cidade do México pelo sul, e Pancho Villa, pelo norte. E o que acontece? Eles permanecem por três meses na Cidade do México, eles discutem, não sabem o que fazer e voltam para casa. É incrível: eles tomam o poder e não sabem o que fazer com ele.
ZH – O senhor acredita que a democracia representativa seja mais adequada ao exercício da vontade política?
Zizek – Não gosto dessa ideia esquerdista radical de que a democracia formal torna o povo passivo e de que precisamos de democracia participativa, na qual estaremos todos engajados. Mas deixe-me ser muito brutal: a grande maioria das pessoas, e eu me incluo nessa maioria, não quer participar o tempo todo da política. Eles querem um Estado eficiente e ordem pública que lhes permita viver em paz e de forma decente. Não vejo nada errado com essa atitude. O problema não é o grande momento extático: oh, um milhão de pessoas na praça. O problema é como mudar a vida real quando, depois do êxtase revolucionário, as coisas voltam ao normal. Existe a opção social-democrata? Sim, embora hoje esteja um pouco em crise. Há a velha opção comunista? Ela se desvaneceu. Uma vez debati com Fukuyama (Francis Fukuyama, pensador liberal americano, autor de O Fim da História) e disse a ele: “OK, você está certo, o capitalismo liberal venceu. Mas admita que os ex-comunistas na China são os melhores administradores desse novo capitalismo” (risos). Essa é a ironia da China. Yeah, yeah, yeah, capitalismo, mas vocês precisam de nós para gerenciá-lo (risos).

(Publicado no jornal Zero Hora no último sábado, 23 de fevereiro de 2013.)

Inscrições encerradas para curso e conferência de Slavoj Žižek em São Paulo! Haverá transmissão online!

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Informamos a todos que terminou o período de inscrições para a Etapa 1 do projeto Marx: A Criação Destruidora em São Paulo e as inscrições para o Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek e para a conferência do filósofo encontram-se encerradas.

Todos que se inscreveram receberão contato por e-mail indicando a disponibilidade de vagas ou sua situação em fila de espera para a conferência.

Adiantamos desde já que será viabilizada aqui (no site do evento) uma transmissão on line ao vivo (streaming) da conferência de Slavoj Žižek (08 de março, às 20h) e que todas as atividades (incluindo o Curso de introdução à sua obra) serão gravadas e posteriormente publicadas no canal da Boitempo no YouTube.

Informamos também que Slavoj Žižek participará de uma sessão de autógrafos de seu novo livro (Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético) no sábado, 09 de março, às 16h na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Paulista.

***

INSCRIÇÕES PARA SEMINÁRIO ACONTECEM EM MARÇO E PARA CURSO LIVRE MARX ENGELS EM ABRIL

O período de inscrições para a Etapa 2 (IV Seminário Margem Esquerda: Marx e O capital) será de 11 de março, às 11h, até 14 de março, às 12h.

O período de inscriçõs para a Etapa 3 (IV Curso Livre Marx-Engels) será de 22 de abril, às 11h, até 25 de abril, às 12h.

Confira mais detalhes sobre as inscrições na seção de Inscrições, clicando aqui.

Nova edição brasileira de “O Capital” e ciclo de seminários mostram a vitalidade de Karl Marx (Folha de S.Paulo)

Karl Marx por Nobru (Folha de SP)

Retrato de Karl Marx feito com massinha pelo artista plástico Nobru

Reportagem de Cassiano Elek Machado publicada na Folha de S.Paulo de hoje, 22 de fevereiro de 2013.

Nos arredores de Budapeste há um parque chamado Szoborpark, o Parque das Estátuas. Criado em 1993, este museu ao ar livre abriga esculturas que perderam espaço na Hungria com o fim do regime comunista.

Além de bustos de obsoletos líderes locais, como Béla Kun, estão lá, entre estátuas de Lênin e Stálin, diversas esculturas representando a efígie barbuda de Karl Marx.

Para muitos, nada mais adequado. Com o fim dos regimes comunistas, as ideias do intelectual alemão teriam virado perfeitos objetos de museu. Para outros tantos, porém, Marx (1818-1883), o autor do “Manifesto Comunista” (obra que completou ontem 165 aninhos), está mais vivo do que nunca.

No Brasil, ao menos, as ideias do filósofo, economista, cientista social, jornalista e historiador vivem um de seus grandes momentos.

Prova concreta disso chega nas próximas semanas às livrarias nacionais. A editora Boitempo, que vem lançando todas as obras de Marx e de seu parceiro intelectual,o compatriota Friedrich Engels (1820-1895), publica agora em março o primeiro dos três volumes de “O Capital”, seu trabalho de mais fôlego.

Será apenas a segunda edição integral brasileira do ensaio, lançado originalmente em 1867. Antes disso, houve apenas uma tradução completa, feita nos anos 1960 por Reginaldo Sant’anna (além de uma edição parcial, coordenada por Paul Singer, no início dos anos 1980).

Em conjunto ao lançamento da nova edição de “O Capital”, a Boitempo e o Sesc-SP promovem, a partir de março, um ciclo de palestras e debates sobre Marx que se estenderá até maio.
“Marx – A Criação Destruidora” (veja programação completa acima) terá a participação de mais de 20 intelectuais de diversas áreas do conhecimento, incluindo convidados internacionais de renome, como o filósofo esloveno Slavoj iek, o geógrafo britânico David Harvey, que lançará, na ocasião, o livro “Para entender ‘O Capital'”, e o cientista político alemão Michael Heinrich.

O CIENTISTA POLÍTICO

Heinrich tinha 14 anos quando começou a ler Karl Marx, ainda no colégio. Hoje, aos 55, trabalha no MEGA, codinome do projeto alemão Marx-Engels-Gesamtausgabe, que vem reestabelecendo os textos e publicando em edições críticas todas as linhas já escritas pela dupla.

O professor, que virá ao país para uma palestra em 22 de março intitulada “Os Manuscritos de Karl Marx e Friedrich Engels”, é autor de um popular livro de apresentação chamado “Uma Introdução aos Três Volumes de ‘O Capital” (sem edição brasileira).

A menção aos “três volumes” no título de seu livro não é casual. Quais seriam as suas sugestões para entender bem o intrincado “O Capital”?, lhe questiona a Folha.

“Vou resumir todas minhas dicas em uma só”, responde. “Leia ‘O Capital’ na íntegra.”

Heinrich, que vem trabalhando em perspectiva não ortodoxa marxista (o próprio Marx se disse “não marxista” em carta para o genro Paul Lafargue, lembra ele) para recuperar o legado intelectual do autor, diz que certos livros de introdução desvirtuam os objetivos da obra.

“As três partes do livro formam uma unidade. Se você ler apenas o primeiro volume terá uma visão não só incompleta, como errada. O sentido integral, mesmo de categorias como valor e mercadoria, só se revela com o final do livro”, afirma.

É preciso, diz ele, questionar o que Marx tenta analisar de fato. “Não era o capitalismo inglês nem o capitalismo do século 19, mas sim a organização interna do modo de produção capitalista, em seu ideal médio, como Marx resume no final do volume 3.”

Nessa perspectiva, sustenta ele, a leitura do livro hoje faria muito mais sentido (e a Folha perguntou a importantes intelectuais brasileiros “por que ler Marx hoje”). “Grande parte da análise que ele faz do capitalismo se aplica muito mais ao que aconteceu no século 20 e no 21 do que ao tempo dele.”

Heinrich diz que um dos grandes enigmas para ele “é entender como o trabalho de um homem que devotou a maior parte da vida à análise do capitalismo e fez pontuais notas sobre a sociedade capitalista é considerado o responsável por um modelo social extremamente autoritário chamado ‘socialismo'”.

Testemunha da queda do Muro de Berlim, em 1989, ele assistiu o interesse por Marx na Alemanha desabar, até ganhar empuxo novamente no final dos anos 1990.

Ele defende o projeto no qual trabalha, o MEGA (também chamado de MEGA-2, para se diferenciar de iniciativa semelhante dos anos 1920) por difundir uma visão mais científica de Marx.

O TRADUTOR

É com perspectiva condizente ao discurso de Heinrich que Rubens Enderle encarou a escalada do Everest que é a tradução de “O Capital”.

Já responsável, sozinho ou em parcerias, por traduções de importantes trabalhos de Marx para a Boitempo, como “A Ideologia Alemã” e “A Guerra Civil na França”, ele atuou durante dois anos no Marx-Engels-Institut da Academia de Ciências de Berlim-Brandemburgo, responsável pelo projeto MEGA.

Apesar de estar embebido em Karl Marx há muitas primaveras, Enderle, 38, diz que “não é marxista, mas sim um marxólogo”, diz o tradutor gaúcho-mineiro-alemão.

“Isso influenciou o trabalho de tradução, pois minha preocupação como tradutor é permanecer o mais fiel possível aos textos, o que, no caso de Marx, implica se desvencilhar de chavões e vulgaridades ideológicas que se acumularam sobre sua obra ao longo de séculos.”

Enderle, atualmente vivendo em Munique, ainda não chegou ao topo da montanha.

Ele está trabalhando no livro 2, que deve ser lançado no ano que vem.

Além das dificuldades tradicionais da tradução do alemão (“falta ao português palavras como ‘coisal’ ou ‘coisalmente'”), ele sublinha outras dificuldades técnicas específicas: “Há passagens em que Marx entra em detalhes sobre peças mecânicas, principalmente de relojoaria”. Um dicionário alemão de relojoaria foi de grande ajuda.

Segundo ele, o fato de a atual tradução ser a primeira baseada na edição MEGA trará mais diferenciais nos volumes 2 e 3 da obra, publicadas depois da morte de Marx.

Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo, que tem extenso catálogo de marxistas, já publicou 15 obras de Marx e Engels (o campeão de vendas é “O Manifesto Comunista”, com 15 mil exemplares), diz que o volume 3 será lançado em 2015. Curadora de diversos seminários sobre Marx, incluindo o atual, ela espera bater o recorde de público desta vez. “Esperamos mais de 15 mil pessoas.”

Intelectuais brasileiros explicam por que ainda é importante ler Marx

Questionados pela Folha, quatro intelectuais brasileiros explicam as razões pelas quais os escritos do filósofo alemão Karl Marx são importantes até os dias de hoje e, por isso, ainda merecem leitura.

ROBERTO SCHWARZ, crítico literário

“Como percepção da sociedade moderna, não há nada que se compare a ‘O Capital’, ao ‘Manifesto Comunista’ e aos escritos sobre a luta de classes na França. A potência da formulação e da análise até hoje deixa boquiaberto. Dito isso, os prognósticos de Marx sobre a revolução operária não se realizaram, o que obriga a uma leitura distanciada. Outros aspectos da teoria, entretanto, ficaram de pé, mais atuais do que nunca, tais como a mercantilização da existência, a crise geral sempre pendente e a exploração do trabalho. Nossa vida intelectual seria bem mais relevante se não fechássemos os olhos para esse lado das coisas.”

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI, filósofo:

“Os textos de Marx, notadamente ‘O Capital’, fazem parte do patrimônio da humanidade. Como todos os textos, estão sujeitos às modas, que, hoje em dia, se sucedem numa velocidade assombrosa. Depois da queda do Muro de Berlim, o marxismo saiu de moda, pois ficava provada de vez a inviabilidade de uma economia exclusivamente regida por um comitê central ‘obedecendo a regras racionais’, sem as informações advindas do mercado. Mas a crise por que estamos passando recoloca a questão da especificidade do modo de produção capitalista, em particular a maneira pela qual esse sistema integra o trabalho na economia. O desemprego é uma questão crucial. As novas tecnologias tendem a suprir empregos. Na outra ponta, o dinheiro como capital, isto é, riqueza que parece produzir lucros por si mesma, chega à aberração quando o capital financeiro se desloca do funcionamento da economia e opera como se a comandasse. A crise atual nos obriga a reler os pensadores da crise. Como cumprir essa tarefa? Alguns simplesmente voltam a Marx como se nesses 150 anos nada de novo tivesse acontecido. Outros alinhavam as modas em curso com os textos de Marx, apimentados com conceitos do idealismo alemão, da psicanálise, da fenomenologia heideggeriana. Creio que a melhor coisa a fazer é reler os textos com cuidado, procurando seus pressupostos e sempre lembrando que a obra de Marx ficou inacabada e sua concepção de história, adulterada, por ter sido colada, sem os cuidados necessários, a um darwinismo respingado de religiosidade.”

DELFIM NETTO, economista

“Porque Marx não é moda. É eterno!”

LEANDRO KONDER, filósofo:

“Os grandes pensadores são grandes porque abordam problemas vastíssimos e o fazem com muita originalidade. A perspectiva burguesa, conservadora, evita discuti-los. E é isso o que caracteriza seu conservadorismo. Marx é o autor mais incômodo que surgiu até hoje na filosofia. Conceitos como materialismo histórico, ideologia, alienação, comunismo e outros são imprescindíveis ao avanço do conhecimento crítico. Por isso, mais do que nunca é preciso frequentá-los.”

165 anos do Manifesto Comunista

Manifesto comunista 165 anos_2

Em 21 de fevereiro de 1848, exatos 165 anos atrás, era publicada a primeira edição do Manifesto Comunista, escrito pelos jovens Karl Marx e Friedrich Engels.

Manifesto foi o primeiro título da Coleção Marx Engels publicado pela Boitempo Editorial, em 1998, com capa de Gilberto Maringoni e tradução de Álvaro Pina. Além do Manifesto Comunista em si, o volume traz ainda a reflexão de seis especialistas sobre as múltiplas facetas desta que é, ainda hoje, a obra política mais lida e difundida em todo o mundo. Com organização de Osvaldo Coggiola, o livro tem ensaios de Antonio Labriola, Jean Jaurès, Leon Trotsky, Harold Laski, Lucien Martin e James Petras. A edição compila ainda sete prefácios de Marx e Engels à obra, feitos em diferentes períodos.

Saiba mais sobre o livro no site da Boitempo clicando aqui.

Participe do sorteio que a Boitempo está organizando no Blog da Boitempo clicando aqui!

Confira, abaixo, as aulas de Chico de Oliveira e Osvaldo Coggiola sobre o Manifesto Comunista, no Curso Livre Marx-Engels, nas edições I e III, respectivamente:


A quarta edição do Curso Livre Marx-Engels integra a programação do projeto MARX: A CRIAÇÃO DESTRUIDORA. Acontecerá entre os dias 07 e 15 de maio de 2013 no SESC Pinheiros (o período de inscrições será de 22 de abril, às 11h, até 25 de abril, às 12h, aqui no site do projeto).

Inscrição para Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek seguido de conferência do filósofo (vagas extremamente limitadas) – INSCRIÇÕES ENCERRADAS DEVIDO À GRANDE PROCURA

SÃO PAULO
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MARX: A CRIAÇÃO DESTRUIDORA
ONDE: SESC Pinheiros (Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros – Tel. 11 3095-9400)

ETAPA 1 – Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek + conferência internacional do filósofo

Valor simbólico de inscrição: R$20,00 (Curso e conferência) ou R$10,00 (apenas conferência)
Período de inscrições: de 19/02, às 11h até 22/02, às 12h

As inscrições serão realizadas somente por meio eletrônico através do preenchimento e envio do formulário abaixo, dentro dos períodos de inscrição. Uma vez preenchido e enviado o formulário, será enviado ao interessado (em um prazo de até 24 horas) um e-mail confirmando a disponibilidade de vagas para o evento. Para confirmar a inscrição, o interessado terá um prazo de 48 horas para realizar o depósito de valor simbólico e enviar o comprovante de depósito para a Comissão de Inscrições.

ATUALIZADO ÀS 17H30: Devido ao grande número de procura por vagas no Curso de Introdução à obra de Slavoj Žižek e ao número extremamente limitado de vagas, foram encerradas as inscrições para o Curso (permanecendo abertas as inscrições para a conferência do filósofo).

Para se inscrever na conferência de Slavoj Žižek, clique aqui.

Inscrição para conferência de Slavoj Žižek em São Paulo (vagas limitadas)

SÃO PAULO
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MARX: A CRIAÇÃO DESTRUIDORA
ONDE: SESC Pinheiros (Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros – Tel. 11 3095-9400)

ETAPA 1 – Conferência internacional de Slavoj Žižek

Valor simbólico de inscrição: R$10,00 (apenas conferência)
Período de inscrições: de 19/02, às 11h até 22/02, às 12h

As inscrições serão realizadas somente por meio eletrônico através do preenchimento e envio do formulário abaixo, dentro dos períodos de inscrição. Uma vez preenchido e enviado o formulário, será enviado ao interessado (em um prazo de até 24 horas) um e-mail confirmando a disponibilidade de vagas para o evento. Para confirmar a inscrição, o interessado terá um prazo de 48 horas para realizar o depósito de valor simbólico e enviar o comprovante de depósito para a Comissão de Inscrições.

Atualizado às 12h de 22/02: Inscrições encerradas para a primeira etapa do evento em São Paulo!

Enviaremos os e-mails a todos os inscritos informando sobre a disponibilidade de vagas, pedimos paciência a todos que se inscreveram.

Informamos que haverá transmissão on-line ao vivo (streaming) da conferência de Slavoj Žižek no dia 08 de março e que toda a programação (do curso e da conferência) serão gravados e posteriormente publicados no canal da Boitempo no YouTube.

A etapa 2 (IV Seminário Margem Esquerda: Marx e O capital) contará com inscrições entre os dias 11 e 14 de março e a etapa 3 (IV Curso Livre Marx-Engels) terá inscrições entre os dias 22 e 25 de abril. Confira mais detalhes na seção de Inscrições clicando aqui.