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Žižek, um sintoma social

Talvez mais assistido que lido, o filósofo esloveno Slavoj Žižek faz conexões complexas sobre o mundo atual ao mesmo tempo em que se configura como um filósofo pop

Em uma sala de espera, pequenos grupos conversam em voz baixa enquanto aguardam o entrevistado. O clima intimista introvertido segue tranquilo até que dá lugar a uma sequência de gestos, piadas, gargalhadas, comentários irônicos e inúmeras referências a gulags e a Stalin: Slavoj Žižek havia entrado no recinto.

O filósofo esloveno ganhou projeção internacional em 1989, com o livro Eles não sabem o que fazem – o sublime objeto da ideologia (Jorge Zahar editor), no qual amarra os conceitos kantianos, freudianos e marxistas em uma tentativa de explicar a ideologia como estruturante inconsciente em uma época que se diz pós-ideológica. De lá para cá, foram muitos os lançamentos traduzidos para o português, com destaque para Bem-vindo ao deserto do real, A visão em paralaxe e Vivendo nos fins dos tempos, todos pela Boitempo.

“Acho que o sucesso de Chávez, no sentido de ele ser um tipo de representante emblemático, não vinha tanto do resultado de seu carisma, mas sim do fato de ele ter dinheiro.”

Falar apenas dos livros de Žižek talvez seja ignorar grande parte de sua “obra”, que se compõe por inúmeras outras inserções midiáticas. O pesquisador sênior da Universidade de Liubliana encabeça a corrente de filósofos “pop” da era da internet e é possível que tenha sido mais assistido em vídeos pela rede do que lido de fato. Para se ter uma ideia de quão longe vai sua exposição, o pensador protagoniza ao menos seis documentários, sendo que dois são focados exclusivamente em sua vida e obra. Além disso, no início de 2013, a londrina Royal Opera House, uma das maiores casas de ópera do mundo, anunciou que nada menos do que quatro novas óperas estão sendo escritas a partir das ideias de Žižek. Como se não bastasse, talvez seja bom lembrar que ele já foi candidato à presidência da Eslovênia, em 1990, e que há uma banda argentina chamada Žižek em sua homenagem.

Seria difícil explicar o porquê da ascensão tão rápida do esloveno ao panteão dos filósofos mais relevantes do século XXI. No início, sua obra cheia de provocações e termos politicamente incorretos era lida como uma acusação “fanfarrona” ao capitalismo vinda da visão comunista de um excêntrico europeu oriental. Porém, ao indicar a cultura pop como chave para o desvelamento da ideologia de uma era neoliberal, que se dizia a-histórica, Žižek pode ter rompido uma brecha na aceitação puramente economicista da realidade que reinava tacitamente desde Margareth Tatcher. As crises financeiras que sucederam a relativa bonança neoliberal dos países desenvolvidos serviram para tornar ainda mais atraente a bússola interpretativa que ele propunha.

O absurdo irracional da pulsão, da ideologia e mesmo da realidade é proclamado por Žižek por meio do cruzamento de conceitos oriundos do idealismo alemão de Kant e Hegel com a Sociologia de Marx e a Psicanálise lacaniana. Faz isso sempre ligando conceitos filosóficos dos mais intrincados a fenômenos da cultura pop, que por sua vez explicam acontecimentos sociais. Dessa forma, o último filme de Batman é lido como uma resposta cheia de ansiedade contra o movimento Ocupe Wall Street, que por sua vez remete à comuna de Paris, assim como o personagem da Dreamworks Kung-fu Panda serve como figura emblemática da ideologia capitalista atual. Suas ideias ignoram as divisões entre alta e baixa cultura, assim como seus trejeitos ignoram o decoro, por vezes excessivo, da posição de catedrático.

O filósofo esloveno visitou o Brasil em março para lançar seu novo livro, segundo alguns sua obra máxima, Menos que nada, pela Boitempo Editorial, e participar do Seminário Marx: a criação destruidora. Após a participação em um programa de TV, concedeu alguns minutos de entrevista à Revista Filosofia. Žižek falou de Chávez, do Bolsa Família e do projeto de novos livros.

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Você havia dito que os novos líderes progressistas da América Latina não criaram nada de novo que possa servir como um modelo para o mundo. Quem você acha que pode ser um substituto de Chávez, na América Latina?

Eu vou dizer algo que vocês provavelmente não vão gostar. Acho que o sucesso de Chávez, no sentido de que ele era um tipo de representante emblemático, não vinha tanto do resultado de seu carisma, mas sim do fato de que ele tinha dinheiro. Ele apoiava a todos. Como Linera [Alvaro Garcia Linera, vice-presidente da Bolívia] me disse: “Tive meus problemas com Chávez, mas ele nos dá 300 milhões por mês”. Claro que não estou dizendo que isso é ruim. Graças a Deus ele estava fazendo isso com o dinheiro em vez de outra coisa. O que quero dizer é que todas essas comunidades locais e autônomas criadas no governo Chávez precisam de uma ordem, uma referência universal que é suprida pelo Estado. E eu não vejo nenhuma outra alternativa aqui. Essa é a questão marxista básica: temos alguma ideia de uma organização em larga escala que pode substituir o Estado da forma que é hoje? A resposta de Negri [Antonio Negri, sociólogo marxista italiano] é: “as multidões irão gradualmente crescer e tomar o poder”. Bom, eu não acredito nisso. O próprio Michael Hardt [filósofo político norte-americano coautor com Antonio Negri do livro Império] admitiu que quase via essa questão como um problema insolúvel. Em algum momento é possível que tenhamos de tomar grandes decisões. Eu uso este exemplo: imagine que o terremoto que atingiu Fukushima tivesse sido um pouco mais forte e toda a parte norte do Japão se tornasse inabitável; então teríamos que deslocar cerca de 100 milhões de pessoas para outras regiões. Como isso seria feito? Quem decidiria isso? Outro exemplo: com as recentes tendências geoclimáticas, grande parte da África central está cada vez mais árida. Por outro lado, partes do norte siberiano hoje congeladas estão começando a derreter por causa do aquecimento global.

O ex-presidente russo Vladimir Putin disse que esse processo seria bom para a Rússia, pois isso criaria terras cultiváveis.

Sim! Mas, novamente, quem decidirá? Algumas pessoas dizem que há um acordo secreto entre China e Rússia. Eu não acredito nisso, por conta do processo de desertificação ocorrendo na China. Hoje já há cerca de 2 milhões de chineses vivendo na Rússia logo acima da China.Então, como regulamos todos esses megaprojetos? Já há quem pense na ideia muito arriscada da chamada geoengenharia. Eles têm essa ideia maluca de que se você dispersar pelos céus alguns metais isso pode diminuir a temperatura global. Ok, mas esses são eventos potencialmente catastróficos. Novamente, quem irá decidi-los? Existe ainda a ideia de que necessitamos de eleições de nível mundial. Quando eu estava nos EUA, havia um casal que me perguntou qual seria, politicamente, a melhor coisa para os norte- -americanos fazerem. Eu disse que a melhor coisa a fazer era deixar o resto do mundo votar nas eleições dos Estados Unidos, exceto os norte-americanos. Compreende? Não podemos conceber um processo eleitoral confiável sendo feito no mundo inteiro. Algumas pessoas pensam que precisaremos de um governo mundial e, portanto de eleições mundiais. Mas há certas limitações com esses planos. Essas questões não são abstratas, nós as enfrentaremos.

Em uma palestra anterior você disse que não via programas de distribuição de renda como o Bolsa Família ou, mais utopicamente, o Renda Mínima como formas efetivas de solução para as desigualdades geradas pelo capitalismo. No entanto, esses programas parecem funcionar, até certo ponto, aqui no Brasil.

Claro que isso é melhor do que nada. Meu pensamento sobre isso é que, se funcionar, então deveríamos abandonar totalmente o marxismo. Porque se você mantém o pensamento clássico marxista, isso quer dizer que aqueles que trabalham devem ser tão explorados que sustentam não apenas os ricos, mas também todos aqueles que não trabalham.

Aí está o problema. Estamos produzindo excessivamente, mas milhões de pessoas continuam morrendo de fome, talvez mais do que nunca. Se (os programas de distribuição de renda) funcionassem, seria maravilhoso. Mas eu duvido que daí saia algo mais do que o velho Estado de Bem-Estar Social, talvez um pouco radicalizado. Isso basicamente mantém o sistema capitalista. O que me pergunto é: até que ponto mesmo o Brasil poderia fazer isso no mercado mundial? Por exemplo, pegue um país desenvolvido. Para distribuir renda ele terá que aumentar os impostos. Se aumenta os impostos, como competir com os chineses? Acredito que para essa solução dar certo deveria haver algumas mudanças radicais no mercado global. E não se pode retirar a competição do jogo porque sem competição o capitalismo não funciona, torna-se extremamente corrupto e improdutivo. Então, esse é o paradoxo do norte-americano de direita que reclama da terceirização de serviços e dos trabalhadores baratos, mas, todavia, gosta de comprar sua TV de tela plana produzida num gulag [campo de trabalhos forçados] chinês por 300 dólares. Sabe, você tem que decidir! O governo chinês anunciou que perceberam que estavam muito dependentes das exportações para o Ocidente e que isso fazia da sua economia frágil. Então, acredito que, por razões puramente econômicas, não porque de repente eles descobriram os interesses dos trabalhadores, o governo agora está pressionando por salários maiores. Eles perceberam que não podem apenas depender de exportações e precisam também de um mercado interno. Essa para mim é uma questão crucial nesse nível e me pergunto o que vai acontecer quando os salários chineses subirem.

Se o Bolsa Família funcionar, podemos abandonar o marxismo. Porque quer dizer que os que trabalham devem ser tão explorados que sustentarão não só os ricos, mas também os que não trabalham.

Quem recebe os impostos pelo uso do solo no Brasil?

O governo federal.

Sabe, os primeiros modelos de Renda Básica vêm dos índios americanos, eles odeiam ser chamados de nativos, e de canadenses que alugam suas terras. Algumas tribos são muito inteligentes, investem o dinheiro, abrem cassinos e cuidam para que todos recebam Saúde, Educação etc. No entanto, apenas 10% das tribos são tão sortudas. As outras ainda vivem sob um desespero extremo. Em sua maioria, os índios americanos são uma nação falida, de uma certa forma muito mais do que os negros, nos índices de alcoolismo, consumo de drogas, Educação etc. Assim também como no Canadá. Os canadenses gostam de se gabar “somos mais humanos do que os EUA”. Atualmente, nas comunidades indígenas do Canadá, cerca de 50% das crianças são retiradas de suas famílias sob o argumento de que as famílias abusam do álcool e de drogas, e postas em orfanatos controlados pelo Estado? Mas eles não deixam os índios administrarem os orfanatos, isso é feito pelos brancos. E essas são estatísticas oficiais da província de Vancouver.

E o governo canadense gosta de se desculpar por erros do passado.

Sim, primeiro você mata a todos e depois pede desculpas. No norte da província de Alberta, os índios estão morrendo sistematicamente de câncer e ninguém liga. Sabe qual é o percentual de abuso sexual nesses orfanatos? 80%! É um inferno! E isso acontece no Canadá hoje em dia, não há 50 anos! Esses dados arruinaram minhas ilusões de que o Canadá é um Estados Unidos europeu civilizado. Sonho, sonho.

Como você vê o papel do discurso de neutralização – no qual não se podem usar palavras más, mas se continuam cometendo atrocidades – encontrado principalmente em discursos oficiais dos governos e instituições? Você acredita que isso possa piorar ainda mais?

Sim, de uma certa forma. Todos conhecem o exemplo ridículo (utilizado nos EUA) de, no lugar de tortura, você dizer “técnica de interrogação intensificada”. Então eu propus para a revista Guardian o seguinte: por que, então, no lugar de dizermos estupro, não dizemos “técnica de sedução intensificada?”. Censuraram essa parte, era demais para eles. Mas o que é crucial observarmos é que a neutralização em palavras abre espaço para uma violência real muito mais forte. Não serei hipócrita aqui; talvez se estivesse em uma situação de puro desespero, eu pudesse torturar alguém. Mas ao menos isso carregaria um nome brutal, para que se tenha consciência do que se está fazendo. O horror é essa neutralização quase administrativa. E, sim, a tendência é piorar. Uma das coisas que me preocupam é que estamos cada vez mais nos aproximando de uma sociedade de apartheid na qual aqueles que estão dentro serão protegidos por todas essas regras politicamente corretas, como nos Estados Unidos, do tipo: eu olho dentro de seus olhos, “estupro visual”, eu converso com você, “estupro verbal”, e toda essa proteção total. Porém, ao mesmo tempo, talvez até na mesma sociedade, ou com aqueles excluídos, haverá a mais absurda explosão de violência real que se possa imaginar.

O Japão é um caso extremamente interessante de como um país foi modernizado e como essa modernização envolveu ao mesmo tempo um tipo de restauração ideológica

Você diz em um de seus livros que a sociedade de consumo vive em uma era de ideologia autoirônica, que não parece ideologia porque ri de si mesma, mas, e por causa disso, funciona muito eficientemente como ideologia. Ao mesmo tempo, há uma grande parcela da população que vive sob a égide de uma ideologia explícita e de núcleo duro, como a Religião. Como os dois discursos colidem?

Eles colidem, mas são dois lados da mesma moeda. Essa ideologia ultrairônica e o fundamentalismo religioso estão produzindo um tipo de rotatória. Acho imprescindível vermos o fundamentalismo atual não como um remanescente de algum passado primitivo, mas como um fenômeno genuinamente pós-moderno. Por isso eu citei no meu livro A visão em paralaxe um outro livro maravilhoso do historiador de esquerda Thomas Frank, chamado Whatever happened to Kansas. Nele, Frank demonstra como o estado norte-americano do Kansas, que era o mais progressista dos EUA em se tratando das lutas sociais abolicionistas, sindicais etc., transformou-se nos últimos 50 anos no pior Bible Belt [cinturão bíblico, denominação que indica regiões dos EUA dominadas pelo pensamento cristão protestante radical]. Portanto, não podemos nos esquecer disso. Costumamos falar do fundamentalismo islâmico, mas pegue o percentual de fundamentalistas islâmicos e compare com o número de fundamentalistas cristãos nos EUA. Você verá que há hoje nos Estados Unidos cerca de 2 milhões de cristãos fundamentalistas considerados perigosos e vigiados pelo FBI. Todas aquelas milícias malucas de Nevada. Eu gosto de alguns deles porque são loucos! Eu conheci alguns no alto Missoula (no estado de Montana). Eles são um secto com dupla origem e têm uma teoria linda de que Eva estava transando com dois homens ao mesmo tempo. Ela transou com Adão e de lá surgiram as pessoas brancas, e ela também transou com o demônio, e dessa relação surgiram os negros e os judeus! O que me fascina nesses casos é que esse tipo de coisa está surgindo hoje em dia. Há algo no capitalismo atual que permite esse tipo de pensamento. Um bom exemplo é algo que ocorreu aqui. Alguém me deu um livro maravilhoso (Corações sujos, de Fernando Morais) sobre o que aconteceu com a colônia japonesa no Brasil. Muitos dos homens diziam que o Japão na verdade havia vencido a guerra e que as notícias anunciando o contrário eram parte da propaganda de guerra sul-americana. Eles até falsificaram alguns jornais. Para mim, esse é o mistério da crença. Os que fizeram as adulterações sabiam que era tudo falso e, apesar disso, estavam lutando por isso, preparados até para morrer pela causa. Isso não é algo “daqueles japoneses primitivos”. O Japão é para mim um caso extremamente interessante de como um país foi profundamente modernizado e como a modernização do Japão envolveu ao mesmo tempo um tipo de restauração ideológica. É um exemplo muito bom do autoritarismo moderno, muito melhor do que qualquer país da Europa.

O que você faria se fosse convidado a escrever um romance?

Eu fui tentado, mas não sou um escritor bom o suficiente a escrever o que eles chamam hoje em dia de romance de detetive literário. Há um escritor norte-americano muito bom, cuja trama do livro é a de que há uma peça desconhecida de Shakespeare que incita a revolta contra a rainha Elisabeth e até hoje pessoas são mortas por causa dela. Em A visão em paralaxe incluí uma notícia completamente maluca na qual um homem dizia que Walter Benjamin não havia se suicidado, mas tinha sido morto porque a polícia stalinista havia descoberto que ele tinha transformado sua tese de história em uma ampla crítica ao stalinismo. Eles queriam impedir sua publicação, então tiveram que matar Benjamin. Minha ideia seria: e se Hegel não tivesse morrido relativamente cedo, com 50 ou 60 anos, e um agente descobrisse que o velho Hegel tivesse escrito “talvez não precisemos da revolução francesa…” etc. Eu escreveria uma série de suspenses históricos protagonizados por filósofos. Uma outra ideia é reescrever o universo de Guerra nas estrelas, mas por uma releitura maoísta. E se os jedis fossem, na verdade, reacionários feudais e o imperador, um progressista tentando estabelecer um estado mais igualitário e justo? Você consegue imaginar isso? Anakin Skywalker um político burguês progressista?

*Entrevista realizada por Bruno Tripode Bartaquini para a
Revista 
Filosofia: ciência e vida

Slavoj Žižek e o capitalismo contemporâneo

Como parte do projeto Marx: a criação destruidora, a Boitempo trouxe Slavoj Žižek ao Brasil para lançar Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético. Em março ele esteve em Porto Alegre, na Câmara Municipal, para apresentar a conferência “De Hegel a Marx… e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise”. Confira a entrevista exclusiva da TV Câmara com o filósofo esloveno. A matéria foi ao ar no dia 5 de março no Jornal da Câmara.

Se inscreva no canal da Boitempo no YouTube e receba em primeira mão os vídeos do projeto Marx: a criação detruidora, e de outros debates, entrevistas e cursos promovidas pela Boitempo clicando aqui.

David Harvey, à Carta Maior: ‘Jogos Olímpicos têm uma longa história de desalojamento de populações’

A luz de seu novo livro, Para entender O capital (Editora Boitempo), o geógrafo David Harvey falou com exclusividade à Carta Maior sobre o histórico de desalojamento de populações e focos de resistência envolvendo megaeventos. Além disso, fez sugestões de leitura sobre a atual fase de desenvolvimento do capital.

Em virtude do lançamento de seu novo livro, Para entender O capital, o geógrafo David Harvey falou com exclusividade à Carta Maior sobre seus últimos trabalhos, o histórico de desalojamento de populações e focos de resistência envolvendo megaeventos e, entre outras coisas, fez sugestões de leitura sobre a atual fase de desenvolvimento do capital.

Convencionou-se apresentar Harvey como “um dos teóricos marxistas mais influentes da atualidade” e “o geógrafo acadêmico mais citado do mundo”. De fato, o distinguished professor da Universidade da Cidade de Nova York pode ser considerado, ao lado de Slavoj Žižek, o intelectual público marxista de maior reconhecimento internacional.

Mas enquanto o filósofo esloveno costuma ser conhecido pela fala exaltada e suas declarações extravagantes sobre a cultura, o britânico construiu sua reputação permanecendo contido e acessível. A crítica do filósofo Ruy Fausto a Žižek, de que ele seria “um perfeito representante da indústria cultural ou, mais precisamente, da grande mídia”, responsável por “momentos extraordinários de marketing”, não cabe ao lacônico David Harvey.

O livro, lançado pela Editora Boitempo, nasceu dos 40 anos de aulas sobre O Capital, de Karl Marx. A íntegra em vídeo do curso encontra-se disponível no seguinte endereço: http://davidharvey.org/reading-capital/. Há dois anos, os estudantes da Universidade da Cidade de Nova Iorque iniciaram um projeto aberto de inserção de legendas nos vídeos, que estão em processo de tradução para 37 línguas.

Além desse incansável esforço relativo à obra-prima de Karl Marx, o geógrafo é um dos grandes responsáveis pela categorização geográfica da dinâmica do capital. Sua produção bibliográfica conta com alguns escritos já clássicos, outros, também elogiadíssimos, de circulação mais modesta.

Do primeiro grupo podemos citar A produção capitalista do espaço, O novo imperialismo e Condição pós-moderna, em que é descrita a relação entre as transformações econômicas e culturais contemporâneas.

Do segundo, Paris, capital of modernity [Paris, capital da modernidade], uma análise da modernização da capital francesa conduzida pelo Barão Haussmann à época de Napoleão III lançando mão dos escritos de Flaubert, Marx e Balzac, e Rebel Cities – from the right to the city to the urban revolution [Cidades Rebeldes – do direito à cidade à revolução urbana], que identifica movimentos como a Comuna de Paris e Occupy Wall Street na chave das insurreições urbanas e percebe a urbe como principal espaço de luta pela superação do capitalismo.

A vinda de David Harvey ao Brasil faz parte do evento Marx: a criação destruidora. Em maio, um curso com curadoria de José Paulo Netto dará prosseguimento ao evento.

Um coração maior que a vida: Slavoj Žižek, sobre Hugo Chávez

slavoj zizek_kim doriaPor Slavoj Žižek.*

Tradução de Anna Capovilla, publicado no jornal Estado de São Paulo de 10/03/2013.

Devo confessar que, muitas vezes, não gostei do que Hugo Chávez fazia, principalmente nos últimos anos do seu reinado. Não me refiro às ridículas acusações referentes à sua ditadura “totalitária” (às pessoas que afirmavam isto, aconselharia um ano ou dois numa ditadura de estilo stalinista!). De fato, ele fez muitas loucuras. Em matéria de política externa, não é possível perdoar-lhe a amizade com Lukaschenko e Ahmadinajad; em política econômica, a série de medidas improvisadas e mal formuladas que, em vez de resolver realmente os problemas, procuravam cobri-los de dinheiro para que não aparecessem; os maus tratos contra os prisioneiros políticos, a ponto de merecer uma reprimenda do próprio Noam Chomsky; até – no final – algumas medidas culturais ridículas como a proibição dos Simpsons na TV.

Mas tudo isto se torna insignificante diante do projeto fundamental com o qual se comprometera. Todos sabemos que, no capitalismo global dos nossos dias, com sua evolução espetacular, mas profundamente desigual, são cada vez mais numerosas as pessoas sistematicamente excluídas da participação ativa da vida social e política. O crescimento explosivo das favelas nas últimas décadas, principalmente nas megalópoles do Terceiro Mundo, das favelas da Cidade do México e de outras capitais da América Latina até a África (Lagos, Chade) à Índia, China, Filipinas e Indonésia, é talvez o acontecimento geopolítico crucial dos nossos tempos. Como, dentro em breve a população urbana da terra superará a população rural (ou, quem sabe, dada a imprecisão dos censos do Terceiro Mundo, já aconteceu), e como os habitantes das favelas serão a maioria nas populações urbanas, não temos condições de tratar com um fenômeno marginal.

Esses grupos enormes constituem evidentemente um dos objetos privilegiados da ajuda humanitária e das instituições assistenciais para as elites liberais – basta lembrar de imagens emblemáticas como a de Bill Gates abraçando uma criança indiana paralítica. Somos constantemente solicitados a deixar de lado as nossas divisões ideológicas e a fazer algo a respeito – quando vamos a uma loja da Starbucks para tomar uma xícara de café, sabemos que já estamos fazendo alguma coisa, porque uma parte do preço que pagamos vai para as crianças da Guatemala ou de outro país.

Mas Chávez via que isto não bastava. Ele via no horizonte os contornos de um novo apartheid. Ele via a luta de classes de outrora ressurgindo sob a forma de novas divisões e até mesmo divisões mais profundas. E ele fez alguma coisa a respeito. Ele foi o primeiro a não só “cuidar dos pobres”, no velho estilo peronista, falando por eles, mas a canalizar com determinação toda a sua energia no seu despertar e efetivamente na sua mobilização como agentes políticos ativos e autônomos. Ele viu claramente que, sem a sua inclusão, nossas sociedades caminharão paulatinamente para um estado de guerra civil permanente. Basta lembrar da frase imortal do filme Cidadão Kane, de Orson Welles, quando Kane, acusado de falar pelos desfavorecidos contra a sua própria classe, responde: “Se eu não defender os interesses dos não privilegiados, alguém mais o fará – talvez alguém sem dinheiro ou propriedades e isto será muito ruim”. Este “alguém mais” seria Chávez.

Portanto, enquanto ouvimos todo este palavreado a respeito do “legado ambíguo” de Chávez, do fato de ele ter “dividido a sua nação”, sempre que o expomos a uma crítica muitas vezes merecida, não devemos esquecer o sentido de tudo isto. Ele se referia ao povo, ao governo de, para e pelo povo. Toda a confusão foi uma confusão criada pela dificuldade de realizar este governo. Com toda a sua retórica teatral, Chávez foi sincero a esse respeito, ele queria dizer isto mesmo. Seus fracassos foram os nossos fracassos.

Ouvi dizer que existe uma doença do coração – como órgão – que vai crescendo excessivamente sem conseguir funcionar como deve, incapaz de bombear todo o sangue através das veias dilatadas. Talvez Chávez tenha morrido porque tinha um coração grande demais.

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Slavoj Žižek no Brasil

Slavoj Žižek está no Brasil, a convite da Boitempo Editorial, para a realização de uma série de conferências no projeto Marx: A criação destruidora, assim como para o lançamento de Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico.

Na próxima terça-feira, 12 de março, o filósofo se apresentará em Brasília, no Centro Comunitário da UnB, às 18h30. Para se inscrever, envie seu nome e telefone para zizek.df@laurocampos.org.br.

Na sexta-feira, 15 de março, o filósofo encerra seu ciclo de conferências em Recife, no evento ArtFlipo. A conferência será no Teatro da UFPE e conta com ingressos a R$20 (inteira) e R$10 (meia entrada), disponíveis para venda nas bilheterias do teatro ou através do site http://eventick.com.br/slavojzizek

Para mais informações sobre a programação, clique aqui.

Para mais informações sobre as inscrições dessas e outras atividades, clique aqui.

Crítica a um modo de produzir riqueza – José Arthur Giannotti, sobre O capital

ocapital_site_altaLeia a seguir um trecho de “Considerações Sobre o Método”, estudo de José Arthur Giannotti escrito para a nova edição de O Capital, de Karl Marx, cujo primeiro de três volumes chega às livrarias dia 21 em edição inédita da Boitempo Editorial.*

Em pré-venda na SaraivaLivraria Cultura e Livraria da Travessa.

O primeiro volume d’O Capital – Crítica da Economia Política foi publicado em 1867, na Alemanha. Embora seu autor, Karl Marx, já tivesse emigrado para Londres em 1850, ele continuava a manter profundas relações com os alemães e os líderes dos movimentos operários que participavam das políticas revolucionárias espalhadas por toda a Europa.

O Capital não foi escrito com intenções meramente teóricas, não pretendia elaborar uma nova visão dos acontecimentos econômicos nem aspirava a ser mais uma notável publicação do mercado editorial: o que a obra pretendia era criticar um modo de produção da riqueza essencialmente ancorado no mercado, isto é, na troca de produtos sob a forma mercantil. Como é possível que uma troca que equalize produtos possa sistematicamente produzir excedente econômico? Criar tanto riqueza como pobreza? Em sua análise, Marx pretende mostrar que esse excedente provém da diferença entre o valor da força de trabalho e o valor que o trabalhador cria ao pô-la em movimento. Espera, assim, provar cientificamente a especificidade da exploração do trabalho pelo capital, inserida num modo de produção que leva ao extremo o tradicional conflito de classes que marca toda a história. No limite, esse conflito não teria condições de ser superado?

No entanto, se o livro desde logo é arma política, não é por isso que foge dos padrões mais rigorosos que regem as publicações universitárias. O fato de nem sempre ter sido bem acolhido pelos pensadores acadêmicos não quer dizer que sua composição e seus passos analíticos deixem de seguir uma metodologia rigorosa e cuidadosamente traçada, buscando uma nova interpretação que pudesse pôr em xeque o pensamento estabelecido.

Essa intenção crítica já se evidencia no subtítulo da obra. A economia política foi o primeiro esboço daquela ciência que hoje conhecemos sob o nome de economia. Como veremos, haverá uma ruptura de paradigma entre essa forma antiga e a nova, que a disciplina assume no século 20. Tal ciência nasce estudando como se constrói e se mantém a riqueza das nações, como se desenvolvem o comércio, o crédito, o juro, o sistema bancário, o imposto, o Estado e assim por diante. Lembremos que o Estado, como formação política separada da totalidade da polis, somente se configura de modo pleno no Ocidente a partir do Renascimento. De certo modo, a economia política é a primeira forma de pensar as relações de produção, o metabolismo do homem com a natureza – retomando a linguagem favorita do jovem Marx – que as desliga de intervenções políticas diretas. Note-se que o Estado sempre esteve presente no desenvolvimento capitalista, mas o mercado, principalmente na sua fase adulta, recusa essa interferência acreditando ser mais eficaz do que qualquer intervenção pública.

Nos meados do século 19, observa o próprio Marx, a nova ciência se apresentava como um bom raciocínio formal: “A produção é a universalidade, a distribuição e a troca, a particularidade, e o consumo, a singularidade na qual o todo se unifica”. Encadeamento superficial, porque deixa de lado a história. Esse comentário aparece numa famosa introdução de 1857, que acompanharia o livro Contribuição à Crítica da Economia Política, o qual pretendia estudar à parte o método da nova ciência inspirando-se na lógica hegeliana, cujo debate estava aceso entre os alemães, mas deixou de ser publicado por causa de sua complexidade. Paradoxalmente, porém, se tornou um dos textos clássicos da dialética materialista. Somente veio à luz, de forma definitiva, na coletânea de escritos inéditos conhecida como Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Esboços da Crítica da Economia Política). Ao lê-lo, desde logo percebemos que Marx critica seus pares não apenas porque desenvolvem teorias incompatíveis com os dados empíricos, mas sobretudo porque aceitam uma visão errônea da natureza do próprio fenômeno econômico, tomando como real o que não passa de ilusão criada pelo próprio capital.

Vamos tentar mostrar os primeiros passos dessa crítica de natureza lógica e ontológica, que, por ser a mais radical, muitas vezes tem sido deixada de lado. Por sua complexidade, por certo exigirá do leitor um esforço suplementar.

II

O estudo da produção, distribuição, troca e consumo segue em geral as linhas de um raciocínio correto, mas deixa de lado a íntima conexão das atividades elencadas. Em particular ignora o lado histórico da produção, cuja forma varia ao longo do tempo conforme se moldam seus meios. Além do mais, se a estrutura das atividades econômicas depende de seu tempo, não é por isso que elas seguem uma evolução linear. Depois da quebra do comunismo primitivo, os sistemas produtivos se articularam em modos conforme se configurou a propriedade dos meios de produção. Somente no capitalismo todos os seus fatores assumem a forma de mercadoria, o que logo desafia o pensamento: como um sistema nessas condições, quando as partes são trocadas por seus valores, pode gerar um excedente econômico? A mercadoria não se confunde com um objeto de troca tribal, situação em que, por exemplo, um saco de alimentos não pode ser trocado por uma canoa, embora esta possa ser trocada por uma mulher. Nem se confunde com o escambo. Suas primeiras formas se encontram nas trocas regulares e por dinheiro entre comunidades separadas. Uma análise dos fenômenos econômicos deve capturar as diferentes formas dessas trocas de um ponto de vista histórico.

Ao dotar os conceitos de historicidade, Marx atenta para as diferentes vias de suas particularizações, assim como para as diversas maneiras pelas quais o universal e o particular se relacionam. “Se não há produção em geral, também não há igualmente produção universal. A produção é sempre um ramo particular da produção – por exemplo, agricultura, pecuária, manufatura, etc. – ou uma totalidade. Mas a economia política não é tecnologia.” Essa observação é muito importante para compreender o sentido da totalidade tal como é pensada por Marx. Já lembramos que uma das origens de seu pensamento foi a dialética do idealismo absoluto. É sintomático que durante a redação do primeiro volume d’O Capital ele tenha relido a Ciência da Lógica de Hegel. O vocabulário e a inspiração desse livro, que funde lógica e ontologia, provocam nos comentadores de Marx as maiores dores de cabeça e os maiores desatinos.

Para Hegel, um conceito geral, como mesa, não é apenas o que um olhar captura como propriedades comuns de várias mesas. Também não se particulariza somando determinações, propriedades predicáveis (mesa de escrever, mesa de comer…). O conceito fruta, por exemplo, não é o conjunto das propriedades inscritas em geral nas frutas. O conceito hegeliano já traz em si o princípio de sua diferenciação. Nada tem a ver com o freguês que, ao comprar frutas, recusa laranjas, peras e figos, porque não encontra em cada coisa a universalidade que as engloba.

Este exemplo – a relação entre o gênero da fruta e suas espécies – se assemelha à relação da produção em geral e suas particularizações. Os gêneros vivos passam a existir mobilizando duas forças contrapostas, o masculino e o feminino, que geram indivíduos igualmente polarizados. Não acontece o mesmo com a produção que se realiza na agricultura, na pecuária, na indústria, cada uma negando a outra de tal modo que se separam na medida em que conformam a unidade geral? Um modo de produção como um todo (produção, distribuição, troca e consumo) não tem suas partes ligadas por essa mesma negatividade produtora? E o mesmo não acontece com os diversos atos de produzir que se diferenciam desde que possam ser igualizados por um padrão tecnológico comum que se expressa no valor? Por sua vez, não forma uma estrutura dotada de temporalidade própria?

Mas se, ao criticar a economia política positiva, tal como se configurava até o século 19, Marx se inspira na dialética hegeliana, não é por isso que aceita mergulhar nos mares do idealismo. Seria muito estranho que um materialista pudesse acreditar que tudo o que é venha ser manifestação do Espírito Absoluto. Marx, que tinha formação de jurista, também passara pela crítica que os neo-hegelianos de esquerda haviam feito a seu mestre. O desafio era dar peso ao real quando a dialética tudo reduz ao discurso do Espírito.

III

No posfácio dos Grundrisse, Marx explicita sua concepção de concreto, o qual, insiste, seria a síntese de várias determinações, isto é, de propriedades atribuídas a algo posto como sujeito de predicações. Não é por isso que o real resultaria do pensamento como se brotasse do cérebro, mas é o pensar, por meio de suas representações, que isola na totalidade do real aspectos que essa própria totalidade diferenciou. O conceito deve, pois, nascer do próprio jogo do real acompanhado pelo olhar do cientista. A mais simples categoria econômica, o valor de troca, pressupõe a população, uma população produzindo em determinadas condições, e também certos tipos de famílias, comunidades ou Estados. O erro dos lógicos formais e dos economistas é duplo. Primeiro, fazer do valor de troca uma propriedade de um objeto trocável em qualquer situação histórica, deixando de diferenciar a troca de presentes entre certas etnias indígenas, a troca de indivíduos por dinheiro num mercado de escravos e assim por diante. Aqui cabe investigar como o valor de troca de cada um desses produtos está ligado ao todo do processo produtivo. É preciso, em contrapartida, sublinhar que somente no modo capitalista de produção todos os seus insumos estão sob a forma de mercadoria. Mas isso somente se torna possível, do ponto de vista da formação histórica, quando aparece no mercado uma força de trabalho desligada de qualquer outro vínculo social. No entanto, do ponto de vista formal, cada objeto conformado para ser mercadoria é posto em comparação com qualquer outro que venha ao mercado em busca de uma medida interna de trocabilidade. Numa situação de mercado, os valores de um escravo trazido de Angola e de outro trazido da China podem ser traduzidos na mesma moeda, mas todo o processo de capturá-los e transportá-los pressiona para que eles tenham medidas diferentes. Não é o que tende a acontecer num modo de produção em que todos os insumos provenham da forma da mercadoria.

Nesse sistema o valor de uso do produto fica bloqueado enquanto estiver no circuito das trocas, e seu valor de troca passa a ser expresso nos termos de qualquer outro produto que costuma aparecer no mercado. O valor de uso de um pé de alface que produzo para a venda precisa se exprimir numa certa quantidade de valor correspondente a cada um dos objetos que comparecem ao mercado. Todos os produtos se tornam, assim, comparáveis. Note-se que essa abstração que captura a determinação valor de troca é feita pelo próprio processo de troca – o pensamento apenas recolhe a distinção feita. Além do mais, esse valor, assim constituído, contradiz a existência do valor de uso no qual se assenta. O valor de troca depende do valor de uso, mas o nega, bloqueia seu exercício, coloca-o entre parênteses. Para chegar até o consumo, a fruta deixa de ser comida para se consumir como objeto de troca, objeto cuja produção foi financiada em vista de sua comercialização.

Para Marx, embora o concreto, o real oposto ao pensamento humano, se apresente como síntese de determinações, estas não são aspectos que os observadores encontrariam na realidade sensível para serem, em seguida, alinhavados numa coisa pensada. Por todos os lados assistimos a relações de troca, mas o cientista precisa levar em conta que essa relação depende de produtores que vivem e operam segundo certos costumes, nos quais os indivíduos, sempre socializados, estão ligados a famílias e a outras unidades sociais. Sabemos que antigamente as relações de troca mercantil apareciam entre as comunidades, quando essas relações sociais deixavam de operar. Somente no capitalismo é que elas fazem parte do sistema como um todo e se dão em sua pureza formal.

Ao introduzir a categoria de modo de produção, Marx rompe definitivamente com o paradigma seguido pelos economistas de sua época. Se a economia política pretendia estudar como se gera a riqueza social, acreditava-se que ela deveria começar estudando o ato produtivo mais simples, o ato de trabalho. Mas o homem é um ser eminentemente histórico e social, cada totalidade produtiva situa o ato de trabalho num lugar muito determinado. Esse é um princípio de que Marx não abre mão. Desse modo, imaginar que o processo produtivo pudesse se fundar no ato individual de trabalho equivale a considerar a atividade de Robinson Crusoé, isolado na sua ilha, como a matriz da produção de riqueza social. Mas o próprio Crusoé não trabalha segundo moldes que ele aprendeu na Inglaterra de seu tempo? Não podemos, pois, perder de vista que o ato de trabalho se integra na totalidade do processo produtivo segundo a trama das outras determinações primárias: distribuição, troca e consumo. A trama categorial define a totalidade do processo. Ademais, como veremos, nem todo ato de trabalho numa empresa vem a ser socialmente produtivo do ponto de vista da criação de valor.

* Publicado no caderno Sabático do jornal Estado de São Paulo hoje.

Slavoj Žižek: um rebelde com causa – entrevista para o jornal Zero Hora

Retrato de Slavoj Žižek por Luca del Baldo

Retrato de Slavoj Žižek por Luca del Baldo

Slavoj Zizek está machucado. Na semana passada, ele caminhava numa rua de Liubliana, capital da Eslovênia, onde vive, quando escorregou numa camada de gelo e caiu de costas, fraturando três costelas. Referindo-se com bom humor ao ocorrido como um “acidente estúpido”, ele dá início na quarta-feira a uma conversa telefônica de 43 minutos com Zero Hora.

Levando em conta que Zizek é um dos mais instigantes pensadores contemporâneos, professor e diretor de instituições acadêmicas na Eslovênia e na Grã-Bretanha, o repórter considera apropriado começar a entrevista com uma questão de ordem teórica: como se pronuncia seu sobrenome?
– Jijék – é o que se pode entender da resposta. – Mas não importa, todos pronunciam errado. Se alguém o pronuncia corretamente, eu suspeito que se trata de um policial.

É a vez de Zizek perguntar o que ocorreu com o Fórum Social Mundial, que se reuniu pela primeira vez em Porto Alegre em 2001. Ele esteve por duas vezes no Brasil, passando por São Paulo, Rio e Salvador. Segue-se uma rajada de comentários sobre as peculiaridades regionais brasileiras (“Quanto mais vou para o Sul, mais gosto”), sobre as capitais baiana (“Salvador é muito quente, eles dançam muito”) e paulista (“Sou um workaholic, gosto de São Paulo. Há ordem. Certo, há caos, não ordem, mas você sabe o que quero dizer. Há uma certa dinâmica. As pessoas trabalham, não dançam. Sou muito totalitário”).

Zizek começará por Porto Alegre um giro de lançamento de seu mais recente livro traduzido para o português, Menos que Nada (Boitempo Editorial). Na Capital, ele participa do seminário Marx: a Criação Destruidora no próximo dia 5, às 19h, na Câmara Municipal. A seguir, uma síntese da entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Quais são suas impressões sobre o Brasil?
Slavoj Zizek – As impressões são sempre divididas, mas gosto do país. Por exemplo: sei que há muita divisão ideológica sobre o Brasil. Uma é de que é um país onde as pessoas sabem aproveitar a vida, dançar e fazer música. Mas sei que há também um outro lado. Sei que há muitos negros no Brasil, mas a elite política permanece branca. Nos governos de Lula, havia apenas aquele famoso cantor negro que era ministro da Cultura (Gilberto Gil). Talvez agora seja diferente. Isso me lembra um pouco os antigos regimes comunistas, onde havia sempre mulheres no governo, mas apenas em três pastas consideradas de segundo classe e afastadas do poder real: Cultura, Educação e Assistência Social. Por outro lado, meus amigos brasileiros dizem que há ainda uma forte divisão racial, mas que permanece invisível. O que deve surpreendê-lo a respeito do Brasil é que a divisão social, entre ricos e pobres, é visível. Você vê favelas. Durante minha primeira visita, no início dos anos 1990, fui convidado a uma reunião na casa do diretor da Volkswagen do Brasil. Era uma mansão luxuosa, mas de lá era possível ver, a pouco mais de um quilômetro, uma favela. Gosto disso. Vocês não escondem isso como em outras cidades. Vá a Buenos Aires, você não vê favelas. Estão escondidas. Inicialmente, fui cético a respeito do governo Lula. Toni Negri (Antonio Negri, sociólogo marxista italiano) me disse há muitos anos: “Não subestime Lula e não superestime Hugo Chávez”. Me convenci cada vez mais de que Chávez não resolve realmente os problemas, injeta dinheiro neles. Ele não inventa nenhuma nova forma socioeconômica. Conheço essas formas de participação dos trabalhadores nas fábricas, mas sou cínico a esse respeito. Amigos me informam que há todas essas boas notícias sobre trabalhadores que controlam fábricas, cooperativas, mas que seria bom ir até lá um ano depois e ver o que aconteceu com a fábrica. Muitas vezes faliu.

ZH – Na sua opinião, há alguma experiência positiva de governo na América Latina?
Zizek – Gosto muito mais do caso da Bolívia, com Evo Morales e seu vice-presidente, Linera (Álvaro García Linera), que conheço. Não há solução fácil com dinheiro, como no caso de Chávez. É preciso trabalhar duro. Acredito que o caso do Brasil é importante. Mesmo se concordamos que o problema é o capitalismo global, blablá, isso não significa que possamos parar e simplesmente preparar alguma grande revolução. Há muitas coisas que você pode fazer dentro da ordem atual. Há espaços abertos nos quais se pode fazer algo. O Brasil é um bom exemplo daquilo que, com uma política inteligente, você pode fazer mesmo dentro das coordenadas do (vamos chamá-lo assim) capitalismo global. Não sou contra o eurocentrismo. Acredito que a Europa levou muitas coisas boas para o mundo, como democracia, igualitarismo e assim por diante. Mas, apesar disso, percebo que muitas vezes os esquerdistas, em especial, são surpreendentemente eurocêntricos. Por exemplo, veja toda essa bobagem de que hoje estamos numa crise global e assim por diante. Quando estive no Brasil, há dois anos, ou agora, em Cingapura e na China, as pessoas estavam certas em me perguntar: dane-se, que crise? Veja, até os Estados Unidos estão se recuperando, a China está indo relativamente bem, Cingapura, Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia. Até os países do sul da África estão indo para a frente. Sem falar no Brasil e na América Latina, então, que crise? Estritamente uma crise local e europeia. Não é uma crise global, você sabe.

ZH – O senhor não viu sinais de crise fora da Europa?
Zizek – É claro que 2008 foi o momento de uma crise global potencial, mas agora, numa perspectiva mais longa, o que vemos é que a Europa simplesmente está perdendo sua função de modelo. Incidentalmente, não acredito que isso seja um fenômeno para se comemorar. O que está surgindo no lugar do capitalismo europeu é o capitalismo com valores asiáticos, que não tem a ver com a Ásia, mas simplesmente com um capitalismo mais autoritário. É um típico exemplo de eurocentrismo incluir tudo numa crise global. Não! Se você observar os números, existe hoje um grande progresso no Brasil, na China. Sei que estão ocorrendo horrores na China. Mas sejamos francos: existe menos fome em massa na China hoje em dia do que, digamos, há 40 anos. Então, não compro essa história superficial de que o capitalismo está em crise mortal, está caminhando para o seu fim e assim por diante. A outra razão pela qual gosto da abordagem brasileira é que estou um pouco farto e cansado desses assim chamados esquerdistas radicais que ainda esperam por um grande momento revolucionário, no qual a verdadeira classe trabalhadora virá impor a sua democracia e assim por diante. Sinceramente, não compro essa história. Sim, eu sei que a democracia multipartidária tem suas limitações. Negri me convenceu de que esse foi precisamente o caso do Brasil. O jeito de Lula fazer funcionar… Foi como Negri descreveu para mim, e acreditei nele. É claro que há corrupção, porque o único jeito de Lula aprovar suas medidas foi corromper, pagar os partidos menores. Então, novamente, há limitações, mas todas aquelas histórias poéticas de cooperativas locais, produtores, comunidades interdistritais que irão se expandindo gradativamente e envolvendo todo o Estado… não, não vão. Mais do que nunca, nós precisamos de organizações globais, com grandes redes globais. Não acredito nesses mitos de comunidades locais se aproximando e assim por diante. Não estou idealizando o Brasil, mas, uma vez mais, foi exemplo modesto e hoje relativamente bem-sucedido do que você pode fazer dentro do sistema existente. Mais uma vez, é importante livrar-se dos mitos de democracia direta e mesmo anticapitalismo. É evidente que sou anticapitalista. Acredito sinceramente no que escrevi. Mas sejamos claros: podemos sequer imaginar uma alternativa hoje? É claro que não peço que ninguém dite planos para o futuro, mas mesmo aventar a ideia de um socialismo de Estado é apenas um pouco mais radical do que uma democracia social. Considero muito deprimente a maneira como a esquerda radical diz todo o tempo, enquanto nós, no Ocidente, vivemos em relativa prosperidade: “Espere um momento, haverá uma crise, vocês verão que essa prosperidade é falsa”. OK, alguns países da Europa agora enfrentam uma crise: Grécia, Espanha, Grã-Bretanha, França.

ZH – Na Bulgária, o governo caiu nesta quarta-feira.
Zizek – Sim, mas você notou como poucas ideias reais nasceram desses protestos? Acredito que essa última crise de insatisfação na Europa é o maior malogro da esquerda que podemos imaginar. Colocamos essa energia em protestos, que eu apoio totalmente, mas não conseguimos transformá-los em movimentos políticos organizados que tentassem tomar o poder e fazer alguma coisa. Lembro dos acontecimentos do movimento Occupy Wall Street. Fui a Nova York, a Frankfurt e a outras cidades e fiz aos manifestantes uma pergunta psicanalítica simples: o que vocês querem? Ouvi respostas totalmente confusas: moralismo abstrato, diversidade política, honestidade, trabalho pelo bem comum. E então você tem esse tipo de movimento antifinanceiro, que eu rejeito totalmente em razão de sua teoria protofascista, que tenta opor o mau capitalismo, que não é produtivo, ao bom capitalismo, que é realmente produtivo. Não, isso não funciona. O capitalismo de hoje é capitalismo financeiro. Você não pode imaginar que ele se financie sem bancos fortes, que ofereçam crédito e assim por diante. E há pessoas que sonham com democracia direta e socialização, mas isso não funciona. Eu estava só perguntando às pessoas: “O que vocês querem?”. E é incrível que, somente por ter feito essa pergunta, eles me tratavam como uma espécie de inimigo. Como se me dissessem: “Por que você está fazendo essa pergunta agora? Estamos na primeira fase de nosso trabalho, estamos desenvolvendo-o”. Eu sei, eu sei, mas não penso francamente que, por haver revolta, irá aparecer algum movimento forte como opção séria. O problema é que, quando você tem revolta e não tem projeto de esquerda que seja aceito pelas pessoas, obviamente, a direita radical vence.

ZH – Não é um problema antigo para a esquerda a conciliação das ideias socialistas com o movimento real das massas?
Zizek – Em primeiro lugar, o marxismo tem de fazer um pouco de autocrítica. Penso que a questão não é apenas a de como podemos mobilizar as pessoas com base em nossa teoria, mas a de nos perguntarmos se algo está errado com a própria teoria. Por exemplo, qual é o sujeito potencial da mudança amanhã? Está claro que não é mais a classe operária tradicional. Na Europa, falar na classe operária tradicional é dizer: “Sim, sim, você é explorado. Mas, pelo menos, você tem um emprego permanente no qual é permanentemente explorado. Você quase pode ser considerado um privilegiado hoje”. Há trabalhadores precarizados, desempregados, imigrantes, excluídos… Não penso que o agente potencial da mudança possa ser simplesmente a velha classe operária. A segunda observação não muito popular que eu gostaria de acrescentar é: não mistifiquemos as tentativas revolucionárias do passado. Por exemplo, as pessoas estão muito desapontadas, oh, meu Deus, com o fato de os partidos islâmicos terem tomado conta do Egito. Amigos que estiveram na Praça Tahrir disseram que não mais de 10% da população efetivamente participaram das mobilizações. Obviamente, a maioria simpatizava com o que estava acontecendo, mas estava à margem, esperando. E agora vou mais longe: você não acha que isso se aplica a todas as revoluções? Veja a Revolução de Outubro. A participação foi ainda menor. Eram um ou dois grupos nas grandes cidades. Mas há um outro exemplo, mais dramático, da Revolução Mexicana, sobre a qual recentemente li um livro. Há um momento em que Emiliano Zapata entra na Cidade do México pelo sul, e Pancho Villa, pelo norte. E o que acontece? Eles permanecem por três meses na Cidade do México, eles discutem, não sabem o que fazer e voltam para casa. É incrível: eles tomam o poder e não sabem o que fazer com ele.
ZH – O senhor acredita que a democracia representativa seja mais adequada ao exercício da vontade política?
Zizek – Não gosto dessa ideia esquerdista radical de que a democracia formal torna o povo passivo e de que precisamos de democracia participativa, na qual estaremos todos engajados. Mas deixe-me ser muito brutal: a grande maioria das pessoas, e eu me incluo nessa maioria, não quer participar o tempo todo da política. Eles querem um Estado eficiente e ordem pública que lhes permita viver em paz e de forma decente. Não vejo nada errado com essa atitude. O problema não é o grande momento extático: oh, um milhão de pessoas na praça. O problema é como mudar a vida real quando, depois do êxtase revolucionário, as coisas voltam ao normal. Existe a opção social-democrata? Sim, embora hoje esteja um pouco em crise. Há a velha opção comunista? Ela se desvaneceu. Uma vez debati com Fukuyama (Francis Fukuyama, pensador liberal americano, autor de O Fim da História) e disse a ele: “OK, você está certo, o capitalismo liberal venceu. Mas admita que os ex-comunistas na China são os melhores administradores desse novo capitalismo” (risos). Essa é a ironia da China. Yeah, yeah, yeah, capitalismo, mas vocês precisam de nós para gerenciá-lo (risos).

(Publicado no jornal Zero Hora no último sábado, 23 de fevereiro de 2013.)

Nova edição brasileira de “O Capital” e ciclo de seminários mostram a vitalidade de Karl Marx (Folha de S.Paulo)

Karl Marx por Nobru (Folha de SP)

Retrato de Karl Marx feito com massinha pelo artista plástico Nobru

Reportagem de Cassiano Elek Machado publicada na Folha de S.Paulo de hoje, 22 de fevereiro de 2013.

Nos arredores de Budapeste há um parque chamado Szoborpark, o Parque das Estátuas. Criado em 1993, este museu ao ar livre abriga esculturas que perderam espaço na Hungria com o fim do regime comunista.

Além de bustos de obsoletos líderes locais, como Béla Kun, estão lá, entre estátuas de Lênin e Stálin, diversas esculturas representando a efígie barbuda de Karl Marx.

Para muitos, nada mais adequado. Com o fim dos regimes comunistas, as ideias do intelectual alemão teriam virado perfeitos objetos de museu. Para outros tantos, porém, Marx (1818-1883), o autor do “Manifesto Comunista” (obra que completou ontem 165 aninhos), está mais vivo do que nunca.

No Brasil, ao menos, as ideias do filósofo, economista, cientista social, jornalista e historiador vivem um de seus grandes momentos.

Prova concreta disso chega nas próximas semanas às livrarias nacionais. A editora Boitempo, que vem lançando todas as obras de Marx e de seu parceiro intelectual,o compatriota Friedrich Engels (1820-1895), publica agora em março o primeiro dos três volumes de “O Capital”, seu trabalho de mais fôlego.

Será apenas a segunda edição integral brasileira do ensaio, lançado originalmente em 1867. Antes disso, houve apenas uma tradução completa, feita nos anos 1960 por Reginaldo Sant’anna (além de uma edição parcial, coordenada por Paul Singer, no início dos anos 1980).

Em conjunto ao lançamento da nova edição de “O Capital”, a Boitempo e o Sesc-SP promovem, a partir de março, um ciclo de palestras e debates sobre Marx que se estenderá até maio.
“Marx – A Criação Destruidora” (veja programação completa acima) terá a participação de mais de 20 intelectuais de diversas áreas do conhecimento, incluindo convidados internacionais de renome, como o filósofo esloveno Slavoj iek, o geógrafo britânico David Harvey, que lançará, na ocasião, o livro “Para entender ‘O Capital'”, e o cientista político alemão Michael Heinrich.

O CIENTISTA POLÍTICO

Heinrich tinha 14 anos quando começou a ler Karl Marx, ainda no colégio. Hoje, aos 55, trabalha no MEGA, codinome do projeto alemão Marx-Engels-Gesamtausgabe, que vem reestabelecendo os textos e publicando em edições críticas todas as linhas já escritas pela dupla.

O professor, que virá ao país para uma palestra em 22 de março intitulada “Os Manuscritos de Karl Marx e Friedrich Engels”, é autor de um popular livro de apresentação chamado “Uma Introdução aos Três Volumes de ‘O Capital” (sem edição brasileira).

A menção aos “três volumes” no título de seu livro não é casual. Quais seriam as suas sugestões para entender bem o intrincado “O Capital”?, lhe questiona a Folha.

“Vou resumir todas minhas dicas em uma só”, responde. “Leia ‘O Capital’ na íntegra.”

Heinrich, que vem trabalhando em perspectiva não ortodoxa marxista (o próprio Marx se disse “não marxista” em carta para o genro Paul Lafargue, lembra ele) para recuperar o legado intelectual do autor, diz que certos livros de introdução desvirtuam os objetivos da obra.

“As três partes do livro formam uma unidade. Se você ler apenas o primeiro volume terá uma visão não só incompleta, como errada. O sentido integral, mesmo de categorias como valor e mercadoria, só se revela com o final do livro”, afirma.

É preciso, diz ele, questionar o que Marx tenta analisar de fato. “Não era o capitalismo inglês nem o capitalismo do século 19, mas sim a organização interna do modo de produção capitalista, em seu ideal médio, como Marx resume no final do volume 3.”

Nessa perspectiva, sustenta ele, a leitura do livro hoje faria muito mais sentido (e a Folha perguntou a importantes intelectuais brasileiros “por que ler Marx hoje”). “Grande parte da análise que ele faz do capitalismo se aplica muito mais ao que aconteceu no século 20 e no 21 do que ao tempo dele.”

Heinrich diz que um dos grandes enigmas para ele “é entender como o trabalho de um homem que devotou a maior parte da vida à análise do capitalismo e fez pontuais notas sobre a sociedade capitalista é considerado o responsável por um modelo social extremamente autoritário chamado ‘socialismo'”.

Testemunha da queda do Muro de Berlim, em 1989, ele assistiu o interesse por Marx na Alemanha desabar, até ganhar empuxo novamente no final dos anos 1990.

Ele defende o projeto no qual trabalha, o MEGA (também chamado de MEGA-2, para se diferenciar de iniciativa semelhante dos anos 1920) por difundir uma visão mais científica de Marx.

O TRADUTOR

É com perspectiva condizente ao discurso de Heinrich que Rubens Enderle encarou a escalada do Everest que é a tradução de “O Capital”.

Já responsável, sozinho ou em parcerias, por traduções de importantes trabalhos de Marx para a Boitempo, como “A Ideologia Alemã” e “A Guerra Civil na França”, ele atuou durante dois anos no Marx-Engels-Institut da Academia de Ciências de Berlim-Brandemburgo, responsável pelo projeto MEGA.

Apesar de estar embebido em Karl Marx há muitas primaveras, Enderle, 38, diz que “não é marxista, mas sim um marxólogo”, diz o tradutor gaúcho-mineiro-alemão.

“Isso influenciou o trabalho de tradução, pois minha preocupação como tradutor é permanecer o mais fiel possível aos textos, o que, no caso de Marx, implica se desvencilhar de chavões e vulgaridades ideológicas que se acumularam sobre sua obra ao longo de séculos.”

Enderle, atualmente vivendo em Munique, ainda não chegou ao topo da montanha.

Ele está trabalhando no livro 2, que deve ser lançado no ano que vem.

Além das dificuldades tradicionais da tradução do alemão (“falta ao português palavras como ‘coisal’ ou ‘coisalmente'”), ele sublinha outras dificuldades técnicas específicas: “Há passagens em que Marx entra em detalhes sobre peças mecânicas, principalmente de relojoaria”. Um dicionário alemão de relojoaria foi de grande ajuda.

Segundo ele, o fato de a atual tradução ser a primeira baseada na edição MEGA trará mais diferenciais nos volumes 2 e 3 da obra, publicadas depois da morte de Marx.

Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo, que tem extenso catálogo de marxistas, já publicou 15 obras de Marx e Engels (o campeão de vendas é “O Manifesto Comunista”, com 15 mil exemplares), diz que o volume 3 será lançado em 2015. Curadora de diversos seminários sobre Marx, incluindo o atual, ela espera bater o recorde de público desta vez. “Esperamos mais de 15 mil pessoas.”

Intelectuais brasileiros explicam por que ainda é importante ler Marx

Questionados pela Folha, quatro intelectuais brasileiros explicam as razões pelas quais os escritos do filósofo alemão Karl Marx são importantes até os dias de hoje e, por isso, ainda merecem leitura.

ROBERTO SCHWARZ, crítico literário

“Como percepção da sociedade moderna, não há nada que se compare a ‘O Capital’, ao ‘Manifesto Comunista’ e aos escritos sobre a luta de classes na França. A potência da formulação e da análise até hoje deixa boquiaberto. Dito isso, os prognósticos de Marx sobre a revolução operária não se realizaram, o que obriga a uma leitura distanciada. Outros aspectos da teoria, entretanto, ficaram de pé, mais atuais do que nunca, tais como a mercantilização da existência, a crise geral sempre pendente e a exploração do trabalho. Nossa vida intelectual seria bem mais relevante se não fechássemos os olhos para esse lado das coisas.”

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI, filósofo:

“Os textos de Marx, notadamente ‘O Capital’, fazem parte do patrimônio da humanidade. Como todos os textos, estão sujeitos às modas, que, hoje em dia, se sucedem numa velocidade assombrosa. Depois da queda do Muro de Berlim, o marxismo saiu de moda, pois ficava provada de vez a inviabilidade de uma economia exclusivamente regida por um comitê central ‘obedecendo a regras racionais’, sem as informações advindas do mercado. Mas a crise por que estamos passando recoloca a questão da especificidade do modo de produção capitalista, em particular a maneira pela qual esse sistema integra o trabalho na economia. O desemprego é uma questão crucial. As novas tecnologias tendem a suprir empregos. Na outra ponta, o dinheiro como capital, isto é, riqueza que parece produzir lucros por si mesma, chega à aberração quando o capital financeiro se desloca do funcionamento da economia e opera como se a comandasse. A crise atual nos obriga a reler os pensadores da crise. Como cumprir essa tarefa? Alguns simplesmente voltam a Marx como se nesses 150 anos nada de novo tivesse acontecido. Outros alinhavam as modas em curso com os textos de Marx, apimentados com conceitos do idealismo alemão, da psicanálise, da fenomenologia heideggeriana. Creio que a melhor coisa a fazer é reler os textos com cuidado, procurando seus pressupostos e sempre lembrando que a obra de Marx ficou inacabada e sua concepção de história, adulterada, por ter sido colada, sem os cuidados necessários, a um darwinismo respingado de religiosidade.”

DELFIM NETTO, economista

“Porque Marx não é moda. É eterno!”

LEANDRO KONDER, filósofo:

“Os grandes pensadores são grandes porque abordam problemas vastíssimos e o fazem com muita originalidade. A perspectiva burguesa, conservadora, evita discuti-los. E é isso o que caracteriza seu conservadorismo. Marx é o autor mais incômodo que surgiu até hoje na filosofia. Conceitos como materialismo histórico, ideologia, alienação, comunismo e outros são imprescindíveis ao avanço do conhecimento crítico. Por isso, mais do que nunca é preciso frequentá-los.”