Monthly Archives: Junho 2013

Žižek, um sintoma social

Talvez mais assistido que lido, o filósofo esloveno Slavoj Žižek faz conexões complexas sobre o mundo atual ao mesmo tempo em que se configura como um filósofo pop

Em uma sala de espera, pequenos grupos conversam em voz baixa enquanto aguardam o entrevistado. O clima intimista introvertido segue tranquilo até que dá lugar a uma sequência de gestos, piadas, gargalhadas, comentários irônicos e inúmeras referências a gulags e a Stalin: Slavoj Žižek havia entrado no recinto.

O filósofo esloveno ganhou projeção internacional em 1989, com o livro Eles não sabem o que fazem – o sublime objeto da ideologia (Jorge Zahar editor), no qual amarra os conceitos kantianos, freudianos e marxistas em uma tentativa de explicar a ideologia como estruturante inconsciente em uma época que se diz pós-ideológica. De lá para cá, foram muitos os lançamentos traduzidos para o português, com destaque para Bem-vindo ao deserto do real, A visão em paralaxe e Vivendo nos fins dos tempos, todos pela Boitempo.

“Acho que o sucesso de Chávez, no sentido de ele ser um tipo de representante emblemático, não vinha tanto do resultado de seu carisma, mas sim do fato de ele ter dinheiro.”

Falar apenas dos livros de Žižek talvez seja ignorar grande parte de sua “obra”, que se compõe por inúmeras outras inserções midiáticas. O pesquisador sênior da Universidade de Liubliana encabeça a corrente de filósofos “pop” da era da internet e é possível que tenha sido mais assistido em vídeos pela rede do que lido de fato. Para se ter uma ideia de quão longe vai sua exposição, o pensador protagoniza ao menos seis documentários, sendo que dois são focados exclusivamente em sua vida e obra. Além disso, no início de 2013, a londrina Royal Opera House, uma das maiores casas de ópera do mundo, anunciou que nada menos do que quatro novas óperas estão sendo escritas a partir das ideias de Žižek. Como se não bastasse, talvez seja bom lembrar que ele já foi candidato à presidência da Eslovênia, em 1990, e que há uma banda argentina chamada Žižek em sua homenagem.

Seria difícil explicar o porquê da ascensão tão rápida do esloveno ao panteão dos filósofos mais relevantes do século XXI. No início, sua obra cheia de provocações e termos politicamente incorretos era lida como uma acusação “fanfarrona” ao capitalismo vinda da visão comunista de um excêntrico europeu oriental. Porém, ao indicar a cultura pop como chave para o desvelamento da ideologia de uma era neoliberal, que se dizia a-histórica, Žižek pode ter rompido uma brecha na aceitação puramente economicista da realidade que reinava tacitamente desde Margareth Tatcher. As crises financeiras que sucederam a relativa bonança neoliberal dos países desenvolvidos serviram para tornar ainda mais atraente a bússola interpretativa que ele propunha.

O absurdo irracional da pulsão, da ideologia e mesmo da realidade é proclamado por Žižek por meio do cruzamento de conceitos oriundos do idealismo alemão de Kant e Hegel com a Sociologia de Marx e a Psicanálise lacaniana. Faz isso sempre ligando conceitos filosóficos dos mais intrincados a fenômenos da cultura pop, que por sua vez explicam acontecimentos sociais. Dessa forma, o último filme de Batman é lido como uma resposta cheia de ansiedade contra o movimento Ocupe Wall Street, que por sua vez remete à comuna de Paris, assim como o personagem da Dreamworks Kung-fu Panda serve como figura emblemática da ideologia capitalista atual. Suas ideias ignoram as divisões entre alta e baixa cultura, assim como seus trejeitos ignoram o decoro, por vezes excessivo, da posição de catedrático.

O filósofo esloveno visitou o Brasil em março para lançar seu novo livro, segundo alguns sua obra máxima, Menos que nada, pela Boitempo Editorial, e participar do Seminário Marx: a criação destruidora. Após a participação em um programa de TV, concedeu alguns minutos de entrevista à Revista Filosofia. Žižek falou de Chávez, do Bolsa Família e do projeto de novos livros.

*

Você havia dito que os novos líderes progressistas da América Latina não criaram nada de novo que possa servir como um modelo para o mundo. Quem você acha que pode ser um substituto de Chávez, na América Latina?

Eu vou dizer algo que vocês provavelmente não vão gostar. Acho que o sucesso de Chávez, no sentido de que ele era um tipo de representante emblemático, não vinha tanto do resultado de seu carisma, mas sim do fato de que ele tinha dinheiro. Ele apoiava a todos. Como Linera [Alvaro Garcia Linera, vice-presidente da Bolívia] me disse: “Tive meus problemas com Chávez, mas ele nos dá 300 milhões por mês”. Claro que não estou dizendo que isso é ruim. Graças a Deus ele estava fazendo isso com o dinheiro em vez de outra coisa. O que quero dizer é que todas essas comunidades locais e autônomas criadas no governo Chávez precisam de uma ordem, uma referência universal que é suprida pelo Estado. E eu não vejo nenhuma outra alternativa aqui. Essa é a questão marxista básica: temos alguma ideia de uma organização em larga escala que pode substituir o Estado da forma que é hoje? A resposta de Negri [Antonio Negri, sociólogo marxista italiano] é: “as multidões irão gradualmente crescer e tomar o poder”. Bom, eu não acredito nisso. O próprio Michael Hardt [filósofo político norte-americano coautor com Antonio Negri do livro Império] admitiu que quase via essa questão como um problema insolúvel. Em algum momento é possível que tenhamos de tomar grandes decisões. Eu uso este exemplo: imagine que o terremoto que atingiu Fukushima tivesse sido um pouco mais forte e toda a parte norte do Japão se tornasse inabitável; então teríamos que deslocar cerca de 100 milhões de pessoas para outras regiões. Como isso seria feito? Quem decidiria isso? Outro exemplo: com as recentes tendências geoclimáticas, grande parte da África central está cada vez mais árida. Por outro lado, partes do norte siberiano hoje congeladas estão começando a derreter por causa do aquecimento global.

O ex-presidente russo Vladimir Putin disse que esse processo seria bom para a Rússia, pois isso criaria terras cultiváveis.

Sim! Mas, novamente, quem decidirá? Algumas pessoas dizem que há um acordo secreto entre China e Rússia. Eu não acredito nisso, por conta do processo de desertificação ocorrendo na China. Hoje já há cerca de 2 milhões de chineses vivendo na Rússia logo acima da China.Então, como regulamos todos esses megaprojetos? Já há quem pense na ideia muito arriscada da chamada geoengenharia. Eles têm essa ideia maluca de que se você dispersar pelos céus alguns metais isso pode diminuir a temperatura global. Ok, mas esses são eventos potencialmente catastróficos. Novamente, quem irá decidi-los? Existe ainda a ideia de que necessitamos de eleições de nível mundial. Quando eu estava nos EUA, havia um casal que me perguntou qual seria, politicamente, a melhor coisa para os norte- -americanos fazerem. Eu disse que a melhor coisa a fazer era deixar o resto do mundo votar nas eleições dos Estados Unidos, exceto os norte-americanos. Compreende? Não podemos conceber um processo eleitoral confiável sendo feito no mundo inteiro. Algumas pessoas pensam que precisaremos de um governo mundial e, portanto de eleições mundiais. Mas há certas limitações com esses planos. Essas questões não são abstratas, nós as enfrentaremos.

Em uma palestra anterior você disse que não via programas de distribuição de renda como o Bolsa Família ou, mais utopicamente, o Renda Mínima como formas efetivas de solução para as desigualdades geradas pelo capitalismo. No entanto, esses programas parecem funcionar, até certo ponto, aqui no Brasil.

Claro que isso é melhor do que nada. Meu pensamento sobre isso é que, se funcionar, então deveríamos abandonar totalmente o marxismo. Porque se você mantém o pensamento clássico marxista, isso quer dizer que aqueles que trabalham devem ser tão explorados que sustentam não apenas os ricos, mas também todos aqueles que não trabalham.

Aí está o problema. Estamos produzindo excessivamente, mas milhões de pessoas continuam morrendo de fome, talvez mais do que nunca. Se (os programas de distribuição de renda) funcionassem, seria maravilhoso. Mas eu duvido que daí saia algo mais do que o velho Estado de Bem-Estar Social, talvez um pouco radicalizado. Isso basicamente mantém o sistema capitalista. O que me pergunto é: até que ponto mesmo o Brasil poderia fazer isso no mercado mundial? Por exemplo, pegue um país desenvolvido. Para distribuir renda ele terá que aumentar os impostos. Se aumenta os impostos, como competir com os chineses? Acredito que para essa solução dar certo deveria haver algumas mudanças radicais no mercado global. E não se pode retirar a competição do jogo porque sem competição o capitalismo não funciona, torna-se extremamente corrupto e improdutivo. Então, esse é o paradoxo do norte-americano de direita que reclama da terceirização de serviços e dos trabalhadores baratos, mas, todavia, gosta de comprar sua TV de tela plana produzida num gulag [campo de trabalhos forçados] chinês por 300 dólares. Sabe, você tem que decidir! O governo chinês anunciou que perceberam que estavam muito dependentes das exportações para o Ocidente e que isso fazia da sua economia frágil. Então, acredito que, por razões puramente econômicas, não porque de repente eles descobriram os interesses dos trabalhadores, o governo agora está pressionando por salários maiores. Eles perceberam que não podem apenas depender de exportações e precisam também de um mercado interno. Essa para mim é uma questão crucial nesse nível e me pergunto o que vai acontecer quando os salários chineses subirem.

Se o Bolsa Família funcionar, podemos abandonar o marxismo. Porque quer dizer que os que trabalham devem ser tão explorados que sustentarão não só os ricos, mas também os que não trabalham.

Quem recebe os impostos pelo uso do solo no Brasil?

O governo federal.

Sabe, os primeiros modelos de Renda Básica vêm dos índios americanos, eles odeiam ser chamados de nativos, e de canadenses que alugam suas terras. Algumas tribos são muito inteligentes, investem o dinheiro, abrem cassinos e cuidam para que todos recebam Saúde, Educação etc. No entanto, apenas 10% das tribos são tão sortudas. As outras ainda vivem sob um desespero extremo. Em sua maioria, os índios americanos são uma nação falida, de uma certa forma muito mais do que os negros, nos índices de alcoolismo, consumo de drogas, Educação etc. Assim também como no Canadá. Os canadenses gostam de se gabar “somos mais humanos do que os EUA”. Atualmente, nas comunidades indígenas do Canadá, cerca de 50% das crianças são retiradas de suas famílias sob o argumento de que as famílias abusam do álcool e de drogas, e postas em orfanatos controlados pelo Estado? Mas eles não deixam os índios administrarem os orfanatos, isso é feito pelos brancos. E essas são estatísticas oficiais da província de Vancouver.

E o governo canadense gosta de se desculpar por erros do passado.

Sim, primeiro você mata a todos e depois pede desculpas. No norte da província de Alberta, os índios estão morrendo sistematicamente de câncer e ninguém liga. Sabe qual é o percentual de abuso sexual nesses orfanatos? 80%! É um inferno! E isso acontece no Canadá hoje em dia, não há 50 anos! Esses dados arruinaram minhas ilusões de que o Canadá é um Estados Unidos europeu civilizado. Sonho, sonho.

Como você vê o papel do discurso de neutralização – no qual não se podem usar palavras más, mas se continuam cometendo atrocidades – encontrado principalmente em discursos oficiais dos governos e instituições? Você acredita que isso possa piorar ainda mais?

Sim, de uma certa forma. Todos conhecem o exemplo ridículo (utilizado nos EUA) de, no lugar de tortura, você dizer “técnica de interrogação intensificada”. Então eu propus para a revista Guardian o seguinte: por que, então, no lugar de dizermos estupro, não dizemos “técnica de sedução intensificada?”. Censuraram essa parte, era demais para eles. Mas o que é crucial observarmos é que a neutralização em palavras abre espaço para uma violência real muito mais forte. Não serei hipócrita aqui; talvez se estivesse em uma situação de puro desespero, eu pudesse torturar alguém. Mas ao menos isso carregaria um nome brutal, para que se tenha consciência do que se está fazendo. O horror é essa neutralização quase administrativa. E, sim, a tendência é piorar. Uma das coisas que me preocupam é que estamos cada vez mais nos aproximando de uma sociedade de apartheid na qual aqueles que estão dentro serão protegidos por todas essas regras politicamente corretas, como nos Estados Unidos, do tipo: eu olho dentro de seus olhos, “estupro visual”, eu converso com você, “estupro verbal”, e toda essa proteção total. Porém, ao mesmo tempo, talvez até na mesma sociedade, ou com aqueles excluídos, haverá a mais absurda explosão de violência real que se possa imaginar.

O Japão é um caso extremamente interessante de como um país foi modernizado e como essa modernização envolveu ao mesmo tempo um tipo de restauração ideológica

Você diz em um de seus livros que a sociedade de consumo vive em uma era de ideologia autoirônica, que não parece ideologia porque ri de si mesma, mas, e por causa disso, funciona muito eficientemente como ideologia. Ao mesmo tempo, há uma grande parcela da população que vive sob a égide de uma ideologia explícita e de núcleo duro, como a Religião. Como os dois discursos colidem?

Eles colidem, mas são dois lados da mesma moeda. Essa ideologia ultrairônica e o fundamentalismo religioso estão produzindo um tipo de rotatória. Acho imprescindível vermos o fundamentalismo atual não como um remanescente de algum passado primitivo, mas como um fenômeno genuinamente pós-moderno. Por isso eu citei no meu livro A visão em paralaxe um outro livro maravilhoso do historiador de esquerda Thomas Frank, chamado Whatever happened to Kansas. Nele, Frank demonstra como o estado norte-americano do Kansas, que era o mais progressista dos EUA em se tratando das lutas sociais abolicionistas, sindicais etc., transformou-se nos últimos 50 anos no pior Bible Belt [cinturão bíblico, denominação que indica regiões dos EUA dominadas pelo pensamento cristão protestante radical]. Portanto, não podemos nos esquecer disso. Costumamos falar do fundamentalismo islâmico, mas pegue o percentual de fundamentalistas islâmicos e compare com o número de fundamentalistas cristãos nos EUA. Você verá que há hoje nos Estados Unidos cerca de 2 milhões de cristãos fundamentalistas considerados perigosos e vigiados pelo FBI. Todas aquelas milícias malucas de Nevada. Eu gosto de alguns deles porque são loucos! Eu conheci alguns no alto Missoula (no estado de Montana). Eles são um secto com dupla origem e têm uma teoria linda de que Eva estava transando com dois homens ao mesmo tempo. Ela transou com Adão e de lá surgiram as pessoas brancas, e ela também transou com o demônio, e dessa relação surgiram os negros e os judeus! O que me fascina nesses casos é que esse tipo de coisa está surgindo hoje em dia. Há algo no capitalismo atual que permite esse tipo de pensamento. Um bom exemplo é algo que ocorreu aqui. Alguém me deu um livro maravilhoso (Corações sujos, de Fernando Morais) sobre o que aconteceu com a colônia japonesa no Brasil. Muitos dos homens diziam que o Japão na verdade havia vencido a guerra e que as notícias anunciando o contrário eram parte da propaganda de guerra sul-americana. Eles até falsificaram alguns jornais. Para mim, esse é o mistério da crença. Os que fizeram as adulterações sabiam que era tudo falso e, apesar disso, estavam lutando por isso, preparados até para morrer pela causa. Isso não é algo “daqueles japoneses primitivos”. O Japão é para mim um caso extremamente interessante de como um país foi profundamente modernizado e como a modernização do Japão envolveu ao mesmo tempo um tipo de restauração ideológica. É um exemplo muito bom do autoritarismo moderno, muito melhor do que qualquer país da Europa.

O que você faria se fosse convidado a escrever um romance?

Eu fui tentado, mas não sou um escritor bom o suficiente a escrever o que eles chamam hoje em dia de romance de detetive literário. Há um escritor norte-americano muito bom, cuja trama do livro é a de que há uma peça desconhecida de Shakespeare que incita a revolta contra a rainha Elisabeth e até hoje pessoas são mortas por causa dela. Em A visão em paralaxe incluí uma notícia completamente maluca na qual um homem dizia que Walter Benjamin não havia se suicidado, mas tinha sido morto porque a polícia stalinista havia descoberto que ele tinha transformado sua tese de história em uma ampla crítica ao stalinismo. Eles queriam impedir sua publicação, então tiveram que matar Benjamin. Minha ideia seria: e se Hegel não tivesse morrido relativamente cedo, com 50 ou 60 anos, e um agente descobrisse que o velho Hegel tivesse escrito “talvez não precisemos da revolução francesa…” etc. Eu escreveria uma série de suspenses históricos protagonizados por filósofos. Uma outra ideia é reescrever o universo de Guerra nas estrelas, mas por uma releitura maoísta. E se os jedis fossem, na verdade, reacionários feudais e o imperador, um progressista tentando estabelecer um estado mais igualitário e justo? Você consegue imaginar isso? Anakin Skywalker um político burguês progressista?

*Entrevista realizada por Bruno Tripode Bartaquini para a
Revista 
Filosofia: ciência e vida

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Slavoj Žižek e o capitalismo contemporâneo

Como parte do projeto Marx: a criação destruidora, a Boitempo trouxe Slavoj Žižek ao Brasil para lançar Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético. Em março ele esteve em Porto Alegre, na Câmara Municipal, para apresentar a conferência “De Hegel a Marx… e de volta a Hegel! A tradição dialética em tempos de crise”. Confira a entrevista exclusiva da TV Câmara com o filósofo esloveno. A matéria foi ao ar no dia 5 de março no Jornal da Câmara.

Se inscreva no canal da Boitempo no YouTube e receba em primeira mão os vídeos do projeto Marx: a criação detruidora, e de outros debates, entrevistas e cursos promovidas pela Boitempo clicando aqui.

Multiculturalismo e capitalismo global

Slavoj Žižek diz à RB: “Todo esse debate sobre multiplicidade cultural serve para evitar abordar a real questão, que é a universalidade radical do capitalismo”

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“[…] e então eu me encontrei durante este tour no Brasil com o seu ministro das Relações Exteriores, sabe, o senhor Antonio Patriota, e não resisti a perguntar se o seu sobrenome é uma tradução da palavra em inglês patriot ou se é uma referência aos mísseis estadunidenses também chamados patriot. Eu pessoalmente prefiro que seja este o caso, porque seria pouco criativo uma autoridade de relações exteriores com tal sobrenome.”

*

Entre uma resposta e outra, o filósofo esloveno Slavoj Žižek, um verdadeiro fenômeno midiático das ciências humanas, gosta de contar anedotas sobre o cotidiano, mesmo de encontros com autoridades governamentais. Parece querer, propositalmente, evidenciar o fundamento de algumas críticas que recebe por seu comportamento pouco ortodoxo no mundo, quase sempre tão sério, da intelectualidade. Na realidade, com a coleção de críticas e de “inimigos”, de esquerda e de direita, Žižek parece que vai se divertindo. Abertamente, ele faz com que a contradição o favoreça aplicando um estilo “falem mal, mas falem de mim”. Žižek concedeu entrevista à Retrato do Brasil em março, no Recife, durante sua participação no seminário internacional Marx: a criação destruidora.

O encontro foi organizado pela editora Boitempo, responsável pela edição de seus livros no Brasil, em parceria com o projeto ArtFliporto, da Festa Literária Internacional de Pernambuco. A Boitempo fez o lançamento do último livro de Žižek no País, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético (2013). Desculpando-se duas ou três vezes por falar muito, inclusive comparando-se a Fidel Castro (“é a única coisa que me une a Fidel, nós dois falamos demais!”), Žižek discursa com a fluidez de quem já sabe de cor como agir, com parênteses dentro de parênteses, emendando as frases de forma a criar um labirinto do qual muitas vezes nem ele mesmo sabe o caminho de volta. O que não reduz seu brilhantismo e, na verdade, acaba tendo um papel na construção de sua fama e lhe serve para afirmar-se como um “hegeliano sofista, que sempre acha uma saída”. É o que diríamos ser parte do show de Žižek, que assim, aos 64 anos, segue atingindo desde a mais alta academia até auditórios lotados com públicos não especializados, interessados em uma reflexão crítica, muitas vezes bem-humoradas, que ele faz questão de manter como parte da performance. Eis a ironia: ele parece estar interessado na guerrilha… das ideias, é claro.

São os parâmetros morais e o discurso politicamente correto, e todo o seu multiculturalismo, que têm sido adotados pelo capitalismo global? Pois os quebre, faça chacota deles! Faça-se com que pensar seja de novo uma atividade perigosa, tal qual ironicamente o fez Friedrich Hegel (1770–1831), segundo afirma Žižek, que procura explorar essa conclusão densamente no seu último livro. No fundo, Žižek só quer ser filósofo.

*

Retrato do Brasil: A geração de inimigos a partir de suas posições e de suas opiniões na mídia parece ser algo bastante frequente...

Slavoj Žižek: Sim, sim. Eu não sou muito formal politicamente e eu gosto do que Mao Tsé-tung disse sobre ser bom ter inimigos que ataquem brutalmente. Esse é o único sinal de que você está no caminho certo. Eu fico muito preocupado quando pessoas que eu considero inimigas dizem: “Ah, mas ele não é totalmente maluco, talvez ele tenha razão nesse ponto”. Aí é quando eu digo: “Opa, o que eu fiz de errado?”. (risos)

RB Você se considera um anticapitalista ou um comunista?

(Longa pausa) Eu prefiro ser um comunista. Porque o anticapitalismo hoje, como eu já desenvolvi em outros livros, é um falso anticapitalismo. Está presente na nossa mídia, na Europa e nos Estados Unidos, certo anticapitalismo ético, como podemos chamá-lo, que é hoje quase um lugar-comum. Há esse paradoxo de o anticapitalismo ser a ideologia dominante do próprio capitalismo, mas o que mais vemos na mídia atualmente? O grande capital envolvido em desastres ecológicos, banqueiros corruptos, especulação financeira destruindo a vida de milhões de pessoas. Esse capitalismo moralista não se questiona enquanto sistema, permitindo que qualquer um possa se dizer anticapitalista. Questionar o problema moral, e não o sistema, foi a primeira coisa que o Vaticano fez, por exemplo, quando a crise de 2008 explodiu. Lembra-se de Bernard Madoff [investidor dos EUA envolvido num grande escândalo com repercussões internacionais e pelo qual foi condenado em 2008]? Eu quis – mas não o fiz porque seria muito maluco até mesmo para o meu gosto – escrever um texto defendendo-o. Claro, ele é desprezível, mas vamos tentar não focá-lo enquanto um indivíduo corrupto. Ele apenas trouxe alguma lógica, um sinal dos tempos. Afinal, ele era um grande humanista, que não vivia de forma ostentatória e financiava não sei quantas instituições de educação e de saúde para os pobres e bláblá-blá. Vê o que eu quero dizer? Madoff era o sistema na sua forma mais radical.

Voltando às criticas que você recebe…

Claro, nós podemos falar sobre isso durante uma semana. A última é que no meu país eu apoio programas racistas contra imigrantes.

Mas há fundamento nas críticas sobre seu eurocentrismo?

Aqui não se trata de dizer se a Europa deve ser líder ou não, como tentam fazer a questão parecer. Atualmente, quando a Europa está obviamente se perdendo, bem, sejamos francos, nos perguntamos: perdendo o quê? De que crise estamos falando? O capitalismo global não está em crise, ele está explorando mais do que nunca…

Não está em crise? Isso não é contraditório até mesmo com as suas posições em livros anteriores, como o Vivendo no fim dos tempos?

Ah, não, não. Nesse ponto, você sabe, eu sou um hegeliano sofista, eu sempre encontro uma saída. Nunca conseguem me pegar [risos]. Bem, falando sério… Eu lamento, mas não é tanto uma questão de eurocentrismo, mas dos limites do multiculturalismo dentro do capitalismo global. O capitalismo é transcultural atualmente, não se pode relativizá-lo culturalmente. Eu não acredito na bobagem de múltiplas modernidades: latino-americana, europeia ocidental, chinesa. Claro que há diferenças, mas todas funcionam dentro do mesmo mercado global. Alain Badiou descreve elegantemente que o capitalismo já não é de uma cultura específica, mas uma espécie de mecanismo formal universal para a circulação do capital e que funciona igualmente em diferentes contextos. Nesse sentido ele é efetivamente universal. A mágica do capitalismo é que o que importa é o processo objetivo da troca. Percebe o que estou tentando dizer? Todo esse debate sobre multiplicidade cultural serve para evitar abordar a real questão, que é a universalidade radical do capitalismo. É por isso que eu, com frequência, enfatizo que o multiculturalismo é a ideologia do capitalismo global. Parece-me que os pensadores pós-coloniais que repetem que o capitalismo global apenas quer que assistamos a filmes de Hollywood e comamos hambúrgueres estão errados. Até no imperialismo o capitalismo era multicultural. Os colonizadores britânicos na Índia tinham como um dos seus principais receios que os indianos se tornassem como eles. Eles chegaram a reorganizar alguns textos da Índia antiga, oferecendo aos indianos uma tradição hindu ancestral identitária. Não é um lindo paradoxo?

E quais são as razões, neste contexto atual, para escrever um livro inteiro sobre Hegel?

São razões imanentemente filosóficas. Hoje, com o desenvolvimento das neurociências, há cientistas que nos dizem que a filosofia está acabada, como Stephen Hawking, que provavelmente é ótimo no seu campo da física, mas sobre filosofia deveria ficar calado. Ele afirma no seu último livro que aquilo que já foram questões filosóficas, tais como se possuímos livre-arbítrio ou se o universo tem um começo, são hoje questões científicas empíricas. Física quântica e cosmologia poderão nos responder sobre isso.

E de outro lado, os estudos culturais – desde Michel Foucault, com sua análise do discurso, até Heidegger – conformam uma abordagem hermenêutica, isto é, na qual a dimensão ontológica está suspensa. Por exemplo, imagine que nós perguntemos o seguinte a algum discípulo de Foucault: Eu tenho uma alma imortal? Ele não irá responder a você diretamente, mas diria algo como: “Primeiro, nós precisamos esclarecer dentro de que espaço ou discurso nós podemos fazer esse questionamento”. Ou seja, a questão da verdade desaparece e a última coisa a que nos resta referir é o horizonte histórico de significado. Eu acho que nós devemos dar um passo à frente, ou para atrás, em direção, inocentemente falando, à grande questão ontológica. Estou a favor do retorno da filosofia.

Sobre a nossa parte do mundo, você acha que possui autoridade intelectual suficiente para dar opiniões sobre a América Latina?

A típica percepção liberal eurocêntrica é que na América Latina, mesmo quando vocês falam sobre socialismo, há sempre uma figura carismática por trás, o que faz com que ele se caracterize como uma espécie de socialismo fascista, ou coisa do tipo. Eu acredito que a questão é muito mais ambígua e que não se deveria falar em “fascismos” ou “ditaduras” tão facilmente. Na Europa, eu vejo uma impotência teórica quando, por exemplo, as pessoas se referem à violência antimigração com um: “Oh, o fascismo está voltando”. Não. Isso é fruto da falta de novos conceitos claros, o que nos leva a pensar por associação e lembra-nos do que, nesse caso, foi o fascismo há 60 anos. Da mesma forma, sobre o chamado “capitalismo com valores asiáticos” – que eu penso ser uma expressão racista, pois não tem nada a ver com a Ásia, e sim com um novo capitalismo autoritário –, é problemático chamar-lhe de fascista. Diria que ele é uma combinação nova e única de um capitalismo forte com um Estado com um forte papel regulatório.

Certo, mas essas percepções das suas opiniões sobre a América…

Eu vou responder, apenas quero alertá-lo de que eu não pretendo ser o “sábio cara europeu” que vai querer lhe dizer a verdade sobre você mesmo. Eu não sei!

Não, não, eu não esperaria isso.

Estou lhe dizendo isso porque as pessoas me perguntam muito se eu penso isso ou aquilo sobre Hugo Chávez. Ora, dane-se! O que eu sei sobre isso é o que eu leio nessa mídia manipulada.

Mas uma das razões das críticas que você recebe é justamente suas fortes opiniões sobre Chávez…

Eu recebi muitas reações quando escrevi dizendo que há muitas coisas das quais não gosto em Chávez. Eu não estava blefando. Mas meu ponto não foi fazer graça dele. Ele nos confrontou com a busca de outras formas, com experimentos desesperados de como reorganizar a produção. E ele era capaz disso, pois podia financiar essas experiências com o dinheiro do petróleo. Mas ele, de fato, talvez fosse um tanto louco na política exterior, na cultura. Meu Deus! Ser amigo de [Aleksandr] Lukashenko [presidente de Belarus, ex-república soviética, desde 1994)! Aquele que é uma espécie de Groucho Marx no poder! Mas, ao mesmo tempo, ele dizia que, se os Estados Unidos e a Europa Ocidental o atacavam, então deveria haver algo de bom nele. Bem, eu não iria tão rápido. Nem todos que são atacados pelo centro do imperialismo são necessariamente bons. Hitler também foi atacado pelo Ocidente liberal e eu não o apoiaria! (risos)

Apesar disso, você concorda que estamos entrando num período de um mundo multicêntrico?

Eu vou dizer uma coisa horrível pela qual muitos da esquerda não gostam de mim. Talvez hoje, efetivamente, entremos nesse mundo multicêntrico passo a passo, mas não seria tempo para que aplicássemos as mesmas medidas a todas as grandes potências? Quero dizer, eu desejo todo o melhor para a China, pois é fascinante o que está acontecendo lá, mas estamos cientes de que a maneira como a China hoje intervém economicamente, especialmente na África subsaariana e nos países asiáticos, é uma brutal forma de neocolonialismo? Claro que nem sempre, pois no Congo, por exemplo, eu espero que haja êxito na participação chinesa nos projetos de unir fisicamente o país por meio de estradas de ferro e na construção de hospitais e escolas. Aliás, o seu ministro Patriota também me disse que Lula estava plenamente ciente dessa brutalidade do imperialismo econômico chinês e ficou chocado quando o descobriu.

Falando sobre o Brasil, você acredita que exista algo como um “modelo brasileiro”?

Não, eu não acho que o Brasil é um modelo universal. Eu não sou maluco como Tariq Ali, que propôs, já que a Europa está em crise, que se deveria seguir a América Latina. Mas o Brasil pode ser uma inspiração para o mundo num específico ponto. A maneira como a atual situação político-econômica nos é majoritariamente apresentada pela mídia é de que existe um capitalismo global com suas regras financeiras, e não segui-las significa o seu isolamento. O Brasil é uma prova de que as coisas não são tão simples. Muitos países que foram estúpidos o suficiente para seguir à risca as regras do Fundo Monetário Internacional simplesmente falharam. Então, mesmo que você queira obter êxito nos próprios termos do capitalismo, não deveria seguir essas regras. Claro que isso não faz do Brasil um modelo universal emancipatório, mas serve como uma boa mensagem de que as coisas, no mínimo, podem ser gerenciadas diferentemente.

*Aleksander Aguilar é jornalista e mestre em estudos internacionais pela Universidade de Barcelona.