Multiculturalismo e capitalismo global

Slavoj Žižek diz à RB: “Todo esse debate sobre multiplicidade cultural serve para evitar abordar a real questão, que é a universalidade radical do capitalismo”

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“[…] e então eu me encontrei durante este tour no Brasil com o seu ministro das Relações Exteriores, sabe, o senhor Antonio Patriota, e não resisti a perguntar se o seu sobrenome é uma tradução da palavra em inglês patriot ou se é uma referência aos mísseis estadunidenses também chamados patriot. Eu pessoalmente prefiro que seja este o caso, porque seria pouco criativo uma autoridade de relações exteriores com tal sobrenome.”

*

Entre uma resposta e outra, o filósofo esloveno Slavoj Žižek, um verdadeiro fenômeno midiático das ciências humanas, gosta de contar anedotas sobre o cotidiano, mesmo de encontros com autoridades governamentais. Parece querer, propositalmente, evidenciar o fundamento de algumas críticas que recebe por seu comportamento pouco ortodoxo no mundo, quase sempre tão sério, da intelectualidade. Na realidade, com a coleção de críticas e de “inimigos”, de esquerda e de direita, Žižek parece que vai se divertindo. Abertamente, ele faz com que a contradição o favoreça aplicando um estilo “falem mal, mas falem de mim”. Žižek concedeu entrevista à Retrato do Brasil em março, no Recife, durante sua participação no seminário internacional Marx: a criação destruidora.

O encontro foi organizado pela editora Boitempo, responsável pela edição de seus livros no Brasil, em parceria com o projeto ArtFliporto, da Festa Literária Internacional de Pernambuco. A Boitempo fez o lançamento do último livro de Žižek no País, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético (2013). Desculpando-se duas ou três vezes por falar muito, inclusive comparando-se a Fidel Castro (“é a única coisa que me une a Fidel, nós dois falamos demais!”), Žižek discursa com a fluidez de quem já sabe de cor como agir, com parênteses dentro de parênteses, emendando as frases de forma a criar um labirinto do qual muitas vezes nem ele mesmo sabe o caminho de volta. O que não reduz seu brilhantismo e, na verdade, acaba tendo um papel na construção de sua fama e lhe serve para afirmar-se como um “hegeliano sofista, que sempre acha uma saída”. É o que diríamos ser parte do show de Žižek, que assim, aos 64 anos, segue atingindo desde a mais alta academia até auditórios lotados com públicos não especializados, interessados em uma reflexão crítica, muitas vezes bem-humoradas, que ele faz questão de manter como parte da performance. Eis a ironia: ele parece estar interessado na guerrilha… das ideias, é claro.

São os parâmetros morais e o discurso politicamente correto, e todo o seu multiculturalismo, que têm sido adotados pelo capitalismo global? Pois os quebre, faça chacota deles! Faça-se com que pensar seja de novo uma atividade perigosa, tal qual ironicamente o fez Friedrich Hegel (1770–1831), segundo afirma Žižek, que procura explorar essa conclusão densamente no seu último livro. No fundo, Žižek só quer ser filósofo.

*

Retrato do Brasil: A geração de inimigos a partir de suas posições e de suas opiniões na mídia parece ser algo bastante frequente...

Slavoj Žižek: Sim, sim. Eu não sou muito formal politicamente e eu gosto do que Mao Tsé-tung disse sobre ser bom ter inimigos que ataquem brutalmente. Esse é o único sinal de que você está no caminho certo. Eu fico muito preocupado quando pessoas que eu considero inimigas dizem: “Ah, mas ele não é totalmente maluco, talvez ele tenha razão nesse ponto”. Aí é quando eu digo: “Opa, o que eu fiz de errado?”. (risos)

RB Você se considera um anticapitalista ou um comunista?

(Longa pausa) Eu prefiro ser um comunista. Porque o anticapitalismo hoje, como eu já desenvolvi em outros livros, é um falso anticapitalismo. Está presente na nossa mídia, na Europa e nos Estados Unidos, certo anticapitalismo ético, como podemos chamá-lo, que é hoje quase um lugar-comum. Há esse paradoxo de o anticapitalismo ser a ideologia dominante do próprio capitalismo, mas o que mais vemos na mídia atualmente? O grande capital envolvido em desastres ecológicos, banqueiros corruptos, especulação financeira destruindo a vida de milhões de pessoas. Esse capitalismo moralista não se questiona enquanto sistema, permitindo que qualquer um possa se dizer anticapitalista. Questionar o problema moral, e não o sistema, foi a primeira coisa que o Vaticano fez, por exemplo, quando a crise de 2008 explodiu. Lembra-se de Bernard Madoff [investidor dos EUA envolvido num grande escândalo com repercussões internacionais e pelo qual foi condenado em 2008]? Eu quis – mas não o fiz porque seria muito maluco até mesmo para o meu gosto – escrever um texto defendendo-o. Claro, ele é desprezível, mas vamos tentar não focá-lo enquanto um indivíduo corrupto. Ele apenas trouxe alguma lógica, um sinal dos tempos. Afinal, ele era um grande humanista, que não vivia de forma ostentatória e financiava não sei quantas instituições de educação e de saúde para os pobres e bláblá-blá. Vê o que eu quero dizer? Madoff era o sistema na sua forma mais radical.

Voltando às criticas que você recebe…

Claro, nós podemos falar sobre isso durante uma semana. A última é que no meu país eu apoio programas racistas contra imigrantes.

Mas há fundamento nas críticas sobre seu eurocentrismo?

Aqui não se trata de dizer se a Europa deve ser líder ou não, como tentam fazer a questão parecer. Atualmente, quando a Europa está obviamente se perdendo, bem, sejamos francos, nos perguntamos: perdendo o quê? De que crise estamos falando? O capitalismo global não está em crise, ele está explorando mais do que nunca…

Não está em crise? Isso não é contraditório até mesmo com as suas posições em livros anteriores, como o Vivendo no fim dos tempos?

Ah, não, não. Nesse ponto, você sabe, eu sou um hegeliano sofista, eu sempre encontro uma saída. Nunca conseguem me pegar [risos]. Bem, falando sério… Eu lamento, mas não é tanto uma questão de eurocentrismo, mas dos limites do multiculturalismo dentro do capitalismo global. O capitalismo é transcultural atualmente, não se pode relativizá-lo culturalmente. Eu não acredito na bobagem de múltiplas modernidades: latino-americana, europeia ocidental, chinesa. Claro que há diferenças, mas todas funcionam dentro do mesmo mercado global. Alain Badiou descreve elegantemente que o capitalismo já não é de uma cultura específica, mas uma espécie de mecanismo formal universal para a circulação do capital e que funciona igualmente em diferentes contextos. Nesse sentido ele é efetivamente universal. A mágica do capitalismo é que o que importa é o processo objetivo da troca. Percebe o que estou tentando dizer? Todo esse debate sobre multiplicidade cultural serve para evitar abordar a real questão, que é a universalidade radical do capitalismo. É por isso que eu, com frequência, enfatizo que o multiculturalismo é a ideologia do capitalismo global. Parece-me que os pensadores pós-coloniais que repetem que o capitalismo global apenas quer que assistamos a filmes de Hollywood e comamos hambúrgueres estão errados. Até no imperialismo o capitalismo era multicultural. Os colonizadores britânicos na Índia tinham como um dos seus principais receios que os indianos se tornassem como eles. Eles chegaram a reorganizar alguns textos da Índia antiga, oferecendo aos indianos uma tradição hindu ancestral identitária. Não é um lindo paradoxo?

E quais são as razões, neste contexto atual, para escrever um livro inteiro sobre Hegel?

São razões imanentemente filosóficas. Hoje, com o desenvolvimento das neurociências, há cientistas que nos dizem que a filosofia está acabada, como Stephen Hawking, que provavelmente é ótimo no seu campo da física, mas sobre filosofia deveria ficar calado. Ele afirma no seu último livro que aquilo que já foram questões filosóficas, tais como se possuímos livre-arbítrio ou se o universo tem um começo, são hoje questões científicas empíricas. Física quântica e cosmologia poderão nos responder sobre isso.

E de outro lado, os estudos culturais – desde Michel Foucault, com sua análise do discurso, até Heidegger – conformam uma abordagem hermenêutica, isto é, na qual a dimensão ontológica está suspensa. Por exemplo, imagine que nós perguntemos o seguinte a algum discípulo de Foucault: Eu tenho uma alma imortal? Ele não irá responder a você diretamente, mas diria algo como: “Primeiro, nós precisamos esclarecer dentro de que espaço ou discurso nós podemos fazer esse questionamento”. Ou seja, a questão da verdade desaparece e a última coisa a que nos resta referir é o horizonte histórico de significado. Eu acho que nós devemos dar um passo à frente, ou para atrás, em direção, inocentemente falando, à grande questão ontológica. Estou a favor do retorno da filosofia.

Sobre a nossa parte do mundo, você acha que possui autoridade intelectual suficiente para dar opiniões sobre a América Latina?

A típica percepção liberal eurocêntrica é que na América Latina, mesmo quando vocês falam sobre socialismo, há sempre uma figura carismática por trás, o que faz com que ele se caracterize como uma espécie de socialismo fascista, ou coisa do tipo. Eu acredito que a questão é muito mais ambígua e que não se deveria falar em “fascismos” ou “ditaduras” tão facilmente. Na Europa, eu vejo uma impotência teórica quando, por exemplo, as pessoas se referem à violência antimigração com um: “Oh, o fascismo está voltando”. Não. Isso é fruto da falta de novos conceitos claros, o que nos leva a pensar por associação e lembra-nos do que, nesse caso, foi o fascismo há 60 anos. Da mesma forma, sobre o chamado “capitalismo com valores asiáticos” – que eu penso ser uma expressão racista, pois não tem nada a ver com a Ásia, e sim com um novo capitalismo autoritário –, é problemático chamar-lhe de fascista. Diria que ele é uma combinação nova e única de um capitalismo forte com um Estado com um forte papel regulatório.

Certo, mas essas percepções das suas opiniões sobre a América…

Eu vou responder, apenas quero alertá-lo de que eu não pretendo ser o “sábio cara europeu” que vai querer lhe dizer a verdade sobre você mesmo. Eu não sei!

Não, não, eu não esperaria isso.

Estou lhe dizendo isso porque as pessoas me perguntam muito se eu penso isso ou aquilo sobre Hugo Chávez. Ora, dane-se! O que eu sei sobre isso é o que eu leio nessa mídia manipulada.

Mas uma das razões das críticas que você recebe é justamente suas fortes opiniões sobre Chávez…

Eu recebi muitas reações quando escrevi dizendo que há muitas coisas das quais não gosto em Chávez. Eu não estava blefando. Mas meu ponto não foi fazer graça dele. Ele nos confrontou com a busca de outras formas, com experimentos desesperados de como reorganizar a produção. E ele era capaz disso, pois podia financiar essas experiências com o dinheiro do petróleo. Mas ele, de fato, talvez fosse um tanto louco na política exterior, na cultura. Meu Deus! Ser amigo de [Aleksandr] Lukashenko [presidente de Belarus, ex-república soviética, desde 1994)! Aquele que é uma espécie de Groucho Marx no poder! Mas, ao mesmo tempo, ele dizia que, se os Estados Unidos e a Europa Ocidental o atacavam, então deveria haver algo de bom nele. Bem, eu não iria tão rápido. Nem todos que são atacados pelo centro do imperialismo são necessariamente bons. Hitler também foi atacado pelo Ocidente liberal e eu não o apoiaria! (risos)

Apesar disso, você concorda que estamos entrando num período de um mundo multicêntrico?

Eu vou dizer uma coisa horrível pela qual muitos da esquerda não gostam de mim. Talvez hoje, efetivamente, entremos nesse mundo multicêntrico passo a passo, mas não seria tempo para que aplicássemos as mesmas medidas a todas as grandes potências? Quero dizer, eu desejo todo o melhor para a China, pois é fascinante o que está acontecendo lá, mas estamos cientes de que a maneira como a China hoje intervém economicamente, especialmente na África subsaariana e nos países asiáticos, é uma brutal forma de neocolonialismo? Claro que nem sempre, pois no Congo, por exemplo, eu espero que haja êxito na participação chinesa nos projetos de unir fisicamente o país por meio de estradas de ferro e na construção de hospitais e escolas. Aliás, o seu ministro Patriota também me disse que Lula estava plenamente ciente dessa brutalidade do imperialismo econômico chinês e ficou chocado quando o descobriu.

Falando sobre o Brasil, você acredita que exista algo como um “modelo brasileiro”?

Não, eu não acho que o Brasil é um modelo universal. Eu não sou maluco como Tariq Ali, que propôs, já que a Europa está em crise, que se deveria seguir a América Latina. Mas o Brasil pode ser uma inspiração para o mundo num específico ponto. A maneira como a atual situação político-econômica nos é majoritariamente apresentada pela mídia é de que existe um capitalismo global com suas regras financeiras, e não segui-las significa o seu isolamento. O Brasil é uma prova de que as coisas não são tão simples. Muitos países que foram estúpidos o suficiente para seguir à risca as regras do Fundo Monetário Internacional simplesmente falharam. Então, mesmo que você queira obter êxito nos próprios termos do capitalismo, não deveria seguir essas regras. Claro que isso não faz do Brasil um modelo universal emancipatório, mas serve como uma boa mensagem de que as coisas, no mínimo, podem ser gerenciadas diferentemente.

*Aleksander Aguilar é jornalista e mestre em estudos internacionais pela Universidade de Barcelona.

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